Há alguns dias, vi uma postagem no Facebook e quis comentá-la aqui, pois a foto evocou minha infância em Teófilo Otoni (MG). Mas outros fatos foram se sobrepondo à minha pauta, e o assunto ficou aguardando uma chance.

O mosaíco das chinelas – Parco Archeologico di Morgantina e Villa Romana del Casale (Foto Holger Uwe Schmitt)
Ontem, lendo minha fonte inesgotável de assuntos aleatórios — o portal português Zap-Aeiou — encontrei uma reportagem sobre escavações em uma villa romana de 1.600 anos. Lá, foi descoberto um mosaico na porta de um quarto de banho com o desenho de chinelos que lembram as conhecidas Sandálias Havaianas — um produto que foi de calçado de pobre brasileiro a acessório fashion na Avenue Champs-Élysées, em Paris.

Os romanos levaram a cultura deles por onde passaram (Imagem que imaginei e o Copilot desenhou para mim / Edição Fotor/PPT – JCarlos)
A história conta que as Havaianas brasileiras foram inspiradas nas sandálias zori japonesas, feitas de palha e tecido. Mas — ainda segundo especialistas no assunto — chinelas com aparência semelhante à mostrada no mosaico circularam pela Espanha, Cirenaica (atual costa da Líbia), Chipre, Jordânia e Ásia Menor, locais por onde as tropas romanas pisaram.
De lá pra cá

“Na década de 60, vendedores-viajantes percorriam o Brasil em Kombis personalizadas levando os chinelos de cidade em cidade” (Imagem e legenda Alpargatas S/A – 1964 – Arquivo)
A foto que deu origem a este texto mostra uma das Kombis usadas na divulgação das Sandálias Havaianas, quando foram lançadas no mercado em 1962. Pouco tempo depois, essa moda chegou a Teófilo Otoni.
Aliás, tomei ciência quase ao mesmo tempo das sandálias Havaianas e das Kombis — um carro estranho, diferente daqueles que eu via passar pelas ruas da minha cidade.

“Sandálias da humildade”. Não tem nada a ver com a história, mas não quis desperdiçar a imagem (Foto Reddit)
As Havaianas daquele tempo eram um produto de má qualidade: soltavam as tiras, quebravam o biloto que prendia as tiras ao solado, e eram substituídas por pregos ou grampos de cabelo (era o nosso caso lá em casa). Mesmo assim, os chinelos foram imitados, e as versões genéricas, evidentemente, eram ainda piores que as originais. Felizmente, isso foi corrigido com o tempo.
Da minha infância, ainda ficaram na memória os apelidos dados às duas novidades — ou como meu pai se referia a elas: as sandálias Havaianas eram chamadas de pau-na-greta, e a Kombi, de Jesus está chamando, pois o volante do veículo, instalado na altura do peito do motorista, significava morte certa em uma colisão frontal.
Olha o tanto de coisa que uma simples foto traz à tona…
[Crônica CXCI/2025]
