09 de agosto de 2025

Como eu virei um anjo

Por José Carlos Sá

Joquei o peso sobre a pinha de metal e saiu uma luz forte de lá (Imagem criada e editada por IA Copilot/IloveMGI/Fotor/Photoroom – Montagem por BN JCarlos)

Meu avô costumava levar o gado — um boi, duas vacas e duas novilhas — para pastar num terreno do governo, ao lado do sítiozinho dele. Era onde os soldados treinavam para a guerra. Quando estavam em exercício, ninguém podia se aproximar, nem olhar. Diziam que o barulho era de tiros de espingarda e explosões de dinamite.

Eu era menino e, como todo menino, curioso. Mas meus tios, que me criaram na casa do vovô, proibiam até que eu chegasse perto da cerca. Tinham medo de que eu me machucasse.

Um dia, acompanhando o vô, tropecei numa pinha — daquelas de pinheiro americano que o pessoal pinta e pendura na árvore de Natal. Mas essa era de ferro. Grande, um pouco pesada. Eu só conseguia segurá-la com as duas mãos. Meu avô viu eu mexendo nela e mandou deixar no mesmo lugar.

De tarde, depois do almoço, enquanto todos cochilavam nas redes, voltei ao pasto. Peguei a pinha, coloquei no embornal e levei para o barracão das ferramentas.

Usei um peso de balança — aquele que minha avó usava para quebrar coquinhos — e comecei a bater na pinha. Apesar de não ter muita força, o peso era de ferro ou bronze, sei lá. Só fazia barulho de metal contra metal. A pinha nem arranhava.

Já sem paciência, querendo ver o que tinha dentro, peguei outra peça da balança, que era maior que a primeira. Coloquei a pinha no chão, subi numa cadeira e joguei o peso sobre ela.

Me lembro de uma luz muito forte que veio lá de baixo, quando o peso bateu na pinha. Depois disso, acordei aqui. Não é onde eu morava, mas estão todos aqui: minha avó, meu avô, meu tio, minha tia.

Ninguém conversa comigo. Será que é porque eu fui desobediente?

[Crônica CLXXVII/2025]

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Crônica Exército Granada 

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