19 de julho de 2025

Crônica para um desaparecido

Por José Carlos Sá

Dassilva não sabe que colaborou para que um crime acontecesse (Imagem gerada e editada por IA Copilot/Upscale)

Quando o dono do bar serviu a Dassilva a sexta dose de cachaça, as pessoas ao redor se afastaram, deixando o vigia noturno isolado no canto do balcão.

A sexta dose era uma espécie de senha conhecida por todos. A partir dali, o sempre calado Dassilva passava a discursar sobre tudo o que existia na Terra — numa erudição que só o álcool é capaz de oferecer. Mas ninguém aguentava tanta “cultura”, que misturava os tempos dos dinossauros com as guerras no Oriente Médio, passando pela infalibilidade do papa e o novo filho de Neymar Júnior.

Foi numa dessas ocasiões, com os habitués já afastados, que um desconhecido pediu licença e ocupou o banco ao lado dele, oferecendo ao excluído sua atenção e, melhor ainda, seus ouvidos.

De longe, o dono do bar e os demais frequentadores riram e fizeram apostas sobre quanto tempo o estranho suportaria o falatório de Dassilva. Estranhamente, o sujeito se entendeu com o vigia. Ainda o convidou para dividir uma mesa na varanda do bar, onde ficaram bebendo por umas boas horas.

O espanto dos outros bêbados virou espécie de ciúme. Quem era aquele cara que adotava o “nosso” rejeitado? Como suportava aquela falação interminável — e ainda incentivava Dassilva a falar mais?

O desconhecido pagou toda a despesa e se ofereceu para levar o companheiro em casa. Mas Dassilva recusou. Preferiu seguir a pé, empurrando a bicicleta e tropeçando a cada passo.

Nunca mais apareceu por ali. Sua ausência foi sentida por alguns dias e, como sempre acontece, depois foi esquecida. Mais um bêbado que desapareceu sem se despedir.

Ninguém ligou o sumiço àquela longa conversa com o estranho. Tampouco ao assalto misterioso ocorrido na empresa em que Dassilva trabalhava — uma fábrica de munições para fuzis — de onde foi levada toda a produção de uma semana. Nenhum alarme tocou, nenhum movimento de caminhões foi notado.

A polícia suspeitou que o vigilante colaborou no roubo, mas não conseguiu provar. Ele foi encontrado no quartinho onde morava, em coma alcoólico — do qual não saiu mais.

[Crônica CLXVI/2025]

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Alcolismo Caso policial Crônica 

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