A foto que ilustra a editoria “Imagem do Dia” do G1, em 07 de julho, me lembrou um episódio envolvendo meu pai, lá em 1964, quando eu ainda era criança.
O G1 publicou uma imagem do céu, com o sol entre nuvens, e no canto esquerdo aparece um objeto escuro que termina num tubo. À direita, vê-se uma moldura — o que dá a entender que a foto foi feita de uma janela. A legenda convida o leitor a assistir a um vídeo que mostra aviões-caça da FAB sendo reabastecidos “em pleno voo”.
O que me chamou a atenção foi o vazio daquela imagem. Sem legenda, é incompreensível. Só vendo o vídeo é possível entender: à esquerda está a asa do avião-tanque e a mangueira de reabastecimento estendida; à direita, a janela — do ponto de vista de quem registrou.
Psicotécnico
Esse “nada” me trouxe à memória um fato — e uma palavra.
Logo após o golpe de Estado de 1964, apareceu na Estrada de Ferro Bahia a Minas, lá em Teófilo Otoni, uma equipe de “agentes secretos” que, além de intervir na diretoria da ferrovia, passou a aplicar testes em funcionários escolhidos aleatoriamente.
Num país tomado por medo e incerteza, os interventores tocavam o terror apenas pela presença.
Os funcionários selecionados eram levados a uma sala vazia. Ficavam ali sozinhos, com a orientação de olhar apenas para frente até que recebessem nova ordem. Caso desobedecessem e virassem a cabeça para os lados, liam placas: “Olhe para frente!”.
Após alguns minutos (ou “séculos”, segundo meu pai — um dos “sorteados”), entrava um homem que fazia várias perguntas pessoais e gerais e aplicava um teste, que mais tarde soubemos chamar “psicotécnico”.
Parênteses: quando ouvi a palavra “psicotécnico”, fiquei encantado. Corri ao velho dicionário da minha avó para decifrá-la, mas o vocábulo não constava. Pensei: “Isso deve ser uma coisa muito moderna, pois nem tem no dicionário” — que, pra mim, era o ápice do saber. Fecha parênteses.
Meu pai contou que, após responder às perguntas, recebeu uma folha e foi orientado a representar a empresa onde trabalhava por meio de um desenho. Mau desenhista, mas brincalhão, ele desenhou duas linhas paralelas, cortadas por traços menores e, por cima, um rabisco imitando uma mola esticada.
O examinador quis saber o que aquilo representava. Ele respondeu:
— Trabalho numa estrada de ferro. Aqui estão os trilhos e os dormentes.
— E esse rabisco aqui em cima?
— É a fumaça da locomotiva, a maria-fumaça… que já passou.
Meu pai foi dispensado e seguiu trabalhando como ferroviário até se aposentar.
Depois, soubemos que os interventores estavam em busca de comunistas infiltrados entre os ferroviários — uma categoria bastante organizada e influente naquela época.
[Crônica CX/2025]


