21 de fevereiro de 2025

Um olhar sobre o passado: a Santa Catarina de Arcipreste Paiva e suas histórias esquecidas – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

O dicionário do Arcipreste Paiva é considerado a mais completa síntese do conhecimento geográfico de Santa Catarina (Reprodução)

As minhas leituras aleatórias, mas com foco em Santa Catarina, me levaram a conhecer mais um pouco dessa terra para a qual viemos há pouco tempo. O livro “Dicionário topográfico, histórico e estatístico da Província de Santa Catarina” é de autoria de Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva e foi concluído em 1868, edição de 2003.

Paiva nasceu na antiga Desterro – hoje Florianópolis – em 1821, estudou em um seminário no Rio de Janeiro e depois de ordenado padre, voltou à Província de Santa Catarina sendo provisionado vigário da Vila de São José da Terra Firme. Naquela época, padres e bispos eram funcionários da Coroa. Em 1863 foi nomeado “Chefe dos Vigários da Vara da Proví­ncia de Santa Catarina”, que era subordinada ao bispo do Rio de Janeiro.

Ele foi professor – introduzindo o ensino de segundo grau em Santa Catarina -, fundou o colégio de Belas Artes e o jornal Regeneração; escritor, é patrono da Cadeira nº 21 da Academia Catarinense de Letras. Esse dicionário, a última obra dele, foi publicado postumamente. Como político foi vereador e deputado provincial em onze legislaturas (de 1844 a 1869).

Com o título de “Arcipreste Paiva” é que o padre é lembrado atualmente (afirmação duvidosa) ao dar o nome a uma rua do centro de Florianópolis, aquela ao lado direito da catedral, para quem sai da igreja em direção à baía sul. 

Outra Catarina

Desterro em 1846, pelo olhar de Victor Meirelles (Foto JCarlos)

O livro, editado pelo IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina), dá um panorama bem detalhado da Província, com dados econômicos, estatísticos e de demografia. Fala das paisagens e potenciais das diferentes regiões, quando Santa Catarina começava ao norte em São Francisco do Sul, a oeste na vila de Lages e ao sul, a cidade de Laguna.

A primeira estranheza que tive foi ler – diferentemente do que afirmam outros autores de livros de história – que a denominação da ilha de Santa Catarina foi dada pelo pioneiro Domingos Dias Velho, quando aqui chegou com a família e agregados, em 1651, em homenagem à filha mais velha do fundador da nova ocupação.

Eu já havia lido em diversos lugares que quem batizou a antiga Ilha dos Patos, em 1526, foi o navegador italiano, a serviço do rei espanhol, Sebastião Caboto. A homenagem seria à Santa Catarina de Alexandria ou à esposa dele, Catarina Medrano.

Depois o padre Paiva analisa a gestão de cada um dos administradores que se sucederam no governo da Ilha de Santa Catarina e da porção continental contígua, na evolução político administrativa, a partir de um povoado – a Vila de Nossa Senhora do Desterro – até chegar ao status de Província na época do Império Brasileiro. Paiva acentuou acertos e erros dos gestores. 

Sobre um deles escreveu: “(…) Este governo foi uma calamidade para Santa Catarina. O povo viu-se obrigado a trabalhar nas obras públicas, e a fazer exercícios militares, não se dispensando os próprios lavradores, do que resultou o atraso da lavoura e do comércio sobrevindo a fome para agravar a situação, devido tudo isso às medidas vexatórias do governo (….)”.

Curiosidades

Há muitas curiosidades que me chamaram a atenção, como por exemplo o local que conheço hoje como “Morro da Cruz”, naquela época (1868) tinha os nomes de Morro do Antão, Bela Vista ou Morro do Sinal (“Aqui é a última estação de sinais de navios que demandam o porto da Capital [Desterro] pela barra do norte”).

O bairro José Mendes, onde residem os amigos Osmarina e Paulo Villalva, em Florianópolis, é assim descrito pelo Arcipreste Paiva: “Agradável subúrbio da capital com excelente praia para banhos a 500 braças ao sul da mesma cidade”. O lugar continua agradável, mas pena que a praia sumiu há muito tempo.

Um mistério que continua é o significado do nome do meu bairro em São José: “Potecas”. Paiva não ajudou a solucionar, só elogiou o lugar: “Pequeno povoado sobre a extrema norte do distrito de São José, onde existem algumas chácaras bem cultivadas e abundantes árvores frutíferas”.

Causos

O Padre Paiva conta que uma ilha no rio Araquari pertencia a um indivíduo que durante toda a vida implicou com muita gente e ganhou o apelido apropriado de “Malcomtodos”. Porém, antes de morrer, se arrependeu perante Deus das desavenças que provocou e pediu para ser enterrado na entrada da igreja, para que o seu corpo fosse pisado por todos que fossem à missa. Eu, hein?

Já na Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, em uma noite em 1835, um homem entrou furtivamente no templo para roubar e recolheu os cálices usados na missa, espalhando as hóstias no chão. Ao tentar embrulhar os objetos em um manto, foi apoderado de “tal  terror  que  ficou imóvel  encostado  a uma  porta  sem  mais  poder  atinar com  a que  lhe  dera  entrada”, onde foi encontrado e preso. O que ele viu, ninguém saberá.

Santo Antônio ou Nossa Senhora das Necessidades? (Foto JCarlos)

Um outro fato que achei interessante é quanto a Santo Antônio de Lisboa – um dos lugares que mais gosto de ir na ilha. Conta o autor que aquela região é habitada desde 1714, quando a filha de um dos portugueses que foi lá habitar e o marido dela, erigiram uma capela a Santo Antônio, doando para isso uma parte do terreno que pertencia a eles. Em 1755 a capela foi elevada à condição de Igreja Episcopal. Pouco depois de desembarcarem 60 casais de açorianos, as autoridades eclesiásticas entenderam que a padroeira da matriz deveria ser Nossa Senhora das Necessidades. Paiva conclui: “Apesar disso, é ainda hoje conhecida como Freguesia de Santo Antônio”.

O livro é interessante por permitir comparar como eram os lugares e seus nomes no passado com o que conhecemos hoje. No entanto, a leitura pode não ser tão atraente para todos, devido ao tema específico e à abordagem mais técnica da obra.

[Resenha VI/2025]