
O dicionário do Arcipreste Paiva é considerado a mais completa síntese do conhecimento geográfico de Santa Catarina (Reprodução)
As minhas leituras aleatórias, mas com foco em Santa Catarina, me levaram a conhecer mais um pouco dessa terra para a qual viemos há pouco tempo. O livro “Dicionário topográfico, histórico e estatístico da Província de Santa Catarina” é de autoria de Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva e foi concluído em 1868, edição de 2003.
Paiva nasceu na antiga Desterro – hoje Florianópolis – em 1821, estudou em um seminário no Rio de Janeiro e depois de ordenado padre, voltou à Província de Santa Catarina sendo provisionado vigário da Vila de São José da Terra Firme. Naquela época, padres e bispos eram funcionários da Coroa. Em 1863 foi nomeado “Chefe dos Vigários da Vara da Província de Santa Catarina”, que era subordinada ao bispo do Rio de Janeiro.
Ele foi professor – introduzindo o ensino de segundo grau em Santa Catarina -, fundou o colégio de Belas Artes e o jornal Regeneração; escritor, é patrono da Cadeira nº 21 da Academia Catarinense de Letras. Esse dicionário, a última obra dele, foi publicado postumamente. Como político foi vereador e deputado provincial em onze legislaturas (de 1844 a 1869).
Com o título de “Arcipreste Paiva” é que o padre é lembrado atualmente (afirmação duvidosa) ao dar o nome a uma rua do centro de Florianópolis, aquela ao lado direito da catedral, para quem sai da igreja em direção à baía sul.
Outra Catarina
O livro, editado pelo IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina), dá um panorama bem detalhado da Província, com dados econômicos, estatísticos e de demografia. Fala das paisagens e potenciais das diferentes regiões, quando Santa Catarina começava ao norte em São Francisco do Sul, a oeste na vila de Lages e ao sul, a cidade de Laguna.
A primeira estranheza que tive foi ler – diferentemente do que afirmam outros autores de livros de história – que a denominação da ilha de Santa Catarina foi dada pelo pioneiro Domingos Dias Velho, quando aqui chegou com a família e agregados, em 1651, em homenagem à filha mais velha do fundador da nova ocupação.
Eu já havia lido em diversos lugares que quem batizou a antiga Ilha dos Patos, em 1526, foi o navegador italiano, a serviço do rei espanhol, Sebastião Caboto. A homenagem seria à Santa Catarina de Alexandria ou à esposa dele, Catarina Medrano.
Depois o padre Paiva analisa a gestão de cada um dos administradores que se sucederam no governo da Ilha de Santa Catarina e da porção continental contígua, na evolução político administrativa, a partir de um povoado – a Vila de Nossa Senhora do Desterro – até chegar ao status de Província na época do Império Brasileiro. Paiva acentuou acertos e erros dos gestores.
Sobre um deles escreveu: “(…) Este governo foi uma calamidade para Santa Catarina. O povo viu-se obrigado a trabalhar nas obras públicas, e a fazer exercícios militares, não se dispensando os próprios lavradores, do que resultou o atraso da lavoura e do comércio sobrevindo a fome para agravar a situação, devido tudo isso às medidas vexatórias do governo (….)”.
Curiosidades
Há muitas curiosidades que me chamaram a atenção, como por exemplo o local que conheço hoje como “Morro da Cruz”, naquela época (1868) tinha os nomes de Morro do Antão, Bela Vista ou Morro do Sinal (“Aqui é a última estação de sinais de navios que demandam o porto da Capital [Desterro] pela barra do norte”).
O bairro José Mendes, onde residem os amigos Osmarina e Paulo Villalva, em Florianópolis, é assim descrito pelo Arcipreste Paiva: “Agradável subúrbio da capital com excelente praia para banhos a 500 braças ao sul da mesma cidade”. O lugar continua agradável, mas pena que a praia sumiu há muito tempo.
Um mistério que continua é o significado do nome do meu bairro em São José: “Potecas”. Paiva não ajudou a solucionar, só elogiou o lugar: “Pequeno povoado sobre a extrema norte do distrito de São José, onde existem algumas chácaras bem cultivadas e abundantes árvores frutíferas”.
Causos
O Padre Paiva conta que uma ilha no rio Araquari pertencia a um indivíduo que durante toda a vida implicou com muita gente e ganhou o apelido apropriado de “Malcomtodos”. Porém, antes de morrer, se arrependeu perante Deus das desavenças que provocou e pediu para ser enterrado na entrada da igreja, para que o seu corpo fosse pisado por todos que fossem à missa. Eu, hein?
Já na Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, em uma noite em 1835, um homem entrou furtivamente no templo para roubar e recolheu os cálices usados na missa, espalhando as hóstias no chão. Ao tentar embrulhar os objetos em um manto, foi apoderado de “tal terror que ficou imóvel encostado a uma porta sem mais poder atinar com a que lhe dera entrada”, onde foi encontrado e preso. O que ele viu, ninguém saberá.
Um outro fato que achei interessante é quanto a Santo Antônio de Lisboa – um dos lugares que mais gosto de ir na ilha. Conta o autor que aquela região é habitada desde 1714, quando a filha de um dos portugueses que foi lá habitar e o marido dela, erigiram uma capela a Santo Antônio, doando para isso uma parte do terreno que pertencia a eles. Em 1755 a capela foi elevada à condição de Igreja Episcopal. Pouco depois de desembarcarem 60 casais de açorianos, as autoridades eclesiásticas entenderam que a padroeira da matriz deveria ser Nossa Senhora das Necessidades. Paiva conclui: “Apesar disso, é ainda hoje conhecida como Freguesia de Santo Antônio”.
O livro é interessante por permitir comparar como eram os lugares e seus nomes no passado com o que conhecemos hoje. No entanto, a leitura pode não ser tão atraente para todos, devido ao tema específico e à abordagem mais técnica da obra.
[Resenha VI/2025]


