A manchete da Folha era: “Quem são os busólogos, fãs de ônibus que reconhecem a marca pelo ronco do motor”. Eu li a chamada, não entendi e abri a matéria, com a curiosidade de saber “que raio são os ‘busólogos’”.
Não passei do primeiro parágrafo, quando entendi que busólogos são “pessoas aficionadas por ônibus, capazes de diferenciar um Volvo de um Mercedes apenas pelo ronco do motor”. Deixei pra lá, pois não diferencio um Volvo de um Mercedes nem olhando os emblemas dos veículos!
Mas como acontece ‘de vez em quando sempre’ comigo, lá do fundo da memória brotou a lembrança de uma conversa que ouvi de dois motoristas, numa viagem de ônibus que fiz entre Porto Velho/Belo Horizonte, no finalzinho da década de 1980.
Era final de ano. Deixei para comprar as passagens de última hora e tive problemas para chegar ao destino. Fui de Porto Velho a Cuiabá (MT) sem problemas, de lá, tive que ir até a cidade de Mineiros, no interior de Goiás, onde encontrei passagem para Belo Horizonte, mas na cabine, numa cadeirinha destinada ao motorista reserva.
Desse posto “privilegiado”, escutei várias histórias de passageiros e dos próprios motoristas. Ficou essa, narrada pelo protagonista:
“Maria Garagem”
Quando comecei a fazer essa linha, conheci uma menina que morava perto da garagem e logo começamos a namorar. Ela sabia a minha escala e ficava de olho quando eu chegava, era só tempo de tomar banho e ela surgia no alojamento. De lá saímos para um bar mais longe, que tem uns ‘esquemas’, sabe como é, para namorar, pois o pai dela não sabia das atividades da filha.
Em uma viagem, o meu carro quebrou na estrada e ficamos umas três horas esperando o socorro. Essa minha namorada ficou desesperada e deixou um bilhete com o fiscal, para eu ir na casa dela – não importava a que horas fossem – que ela estaria me esperando. Fiquei preocupado, como ir na casa dela, se o pai não queria que ela namorasse? O fiscal, depois que eu li o bilhete, disse: “A fulana falou que vai deixar o portão encostado e o cachorro preso. A janela dela é a do canto da esquerda”.
Mesmo com medo, fui lá na casa da namorada. Encontrei tudo conforme o combinado e antes que eu batesse na janela, ela a abriu, fez sinal de silêncio e para que eu pulasse para dentro. Cara, foi um sacrifício! Cansado como eu estava… Pulei a janela e já fomos aos beijos para a cama, que rangeu. O pai dela, no outro quarto, pigarreou e eu a puxei para o chão.
Apesar de estar gostando, o medo foi mais forte. Fazia sinal que ia embora e ela me segurava. Por fim me desprendi; vesti a cueca e as calças, peguei os sapatos e pulei a janela. Ainda consegui dormir um pouco antes de pegar a estrada novamente.
Dez dias depois, voltei a Mineiros e não encontrei a namorada me esperando na rodoviária, nem na garagem. Quando terminei de revisar o ônibus e fui para o alojamento, perguntei ao fiscal se a tinha visto. Ele fez uma cara não muito boa e perguntei o que aconteceu.
A resposta foi que o pai encontrou minhas meias no quarto dela, que não conseguiu explicar de quem eram. Ela apanhou e foi mandada para a casa de uma tia lá em Cristalina. O pai disse que ela não voltará mais para cá e falou, quando estava bêbado, que se encontrar o cara que estava no quarto da filha dele vai capar.
Agora, quando venho a Mineiros, nem saio do alojamento. Vai que o velho me encontra!
[Crônica CLXXVIII/2024]

