Esta semana a Marcela deixou um bilhete para eu ver de manhã: escolher o feijão, lavar e deixar de molho. Enquanto espalhava os grãos sobre o tampo da mesa e começava a separar aqueles que estavam estragados, fiz uma viagem ao passado. A máquina do tempo me levou para a rua Doutor Reinaldo, número 43, no centro de Teófilo Otoni, lá por 1960 ou perto disso…
Lembro que eu – criança pequena – acompanhava minha avó Rosinha, ou simplesmente Vózinha, quando ela ia catar feijão. Íamos para a porta da cozinha e Vózinha se sentava em uma cadeira baixa e eu em um banquinho ao lado. “Ajudava” mas não entendia o porquê os grãos quebrados ao meio que eu separava eram reincorporados àqueles que iam para a panela. Depois soube a razão.
Antes da mecanização da lavoura, o feijão era colhido manualmente, ainda dentro das vagens. A produção era colocada no meio de um terreiro e as pessoas batiam no monte com varas, depois colocavam o feijão em uma peneira e atiravam para o ar, para separar os grãos (pesados) da vagem. Quando comprávamos o feijão no mercado – a medida era em “litros” – vinham pedras, torrões de barro e muitos grãos com caruncho. Em casa também se usava jogar o feijão para o alto e apará-lo na peneira depois de catado.
Após a escolha, os grãos eram colocados em uma bacia com água e aqueles que boiassem eram descartados e o restante ia para a panela. Mesmo assim não era difícil você encontrar uma pedra no seu prato ou, pior, quebrando o seu dente. Hoje, esses resíduos são mais raros de ser encontrados, ficando os caroços com caruncho ou estragados o que é dispensado.
Para encerrar este post, um metapoema do poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) sobre o ato de catar feijão e escrever:
Catar Feijão
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

