Por aqueles tempos, o assunto em Vila Pouca era a esperada chegada de uma pessoa importante para os pequenos criadores de gado, porcos, ovelhas e cabras.
Não era nenhum grande comprador nem representante comercial de produtos veterinários que distribuía amostras grátis e brindes para divulgar seus medicamentos.
Tratava-se de um alemão, gente simples, que, depois de ficar fisicamente impossibilitado de trabalhar na lavoura e em outras atividades que exigiam grande esforço, passou a colocar suas habilidades “cirúrgicas” à disposição dos produtores, ganhando com essa atividade o seu sustento.
O alemão Peter era o “Pedro Capador”. Viajava de cidade em cidade oferecendo seus serviços, muito procurados pelos criadores que queriam domar ou amansar animais, especialmente bois destinados à tração de carros ou engenhos. Já os criadores de porcos e ovelhas buscavam o serviço para que os animais engordassem mais rapidamente para o abate.
O método tradicional de castração, usando um porrete, causava muitas mortes. O alemão Peter, porém, com apenas um canivete e um punhado de cinzas, reduzia a mortalidade por infecção a quase zero, o que fez sua fama correr mundo.
Mas Pedro Capador, além das ferramentas citadas, tinha um segredo para garantir que os animais castrados por ele sobrevivessem à cirurgia: só trabalhava em determinadas épocas, observando a lua nova ou a minguante, de preferência a lua nova de setembro, quando soprava o vento norte. As capações feitas nesse período garantiam que o animal sobreviveria e logo estaria gordo, proporcionando lucro ao dono.
A pessoa mais ansiosa pela chegada do alemão, no entanto, era o coronel Bartolomeu, dono da Fazenda Jaboticabeiras, em cujas terras fora erguida Vila Pouca. Deixou o feitor avisado de que, quando Pedro Capador chegasse, deveria ser levado imediatamente à sua presença.
O “convite” foi feito ao alemão assim que ele apeou da caminhonete, em frente à Venda do Terto, para tomar uma cachaça e tirar a poeira da garganta. O capataz e mais dois cabras convenceram Pedro a embarcar novamente e acompanhá-los até a sede da fazenda.
O coronel Bartolomeu dispensou os empregados e, falando diretamente ao homem, que não escondia o nervosismo, disse:
– Seu Pedro, já ouvi falar muito bem do senhor e preciso das suas habilidades castratórias. Quanto o senhor cobra por castração?
– Pois não, seu coronel. Estou aqui para servir ao senhor. Cobro mil cruzeiros por cabeça de boi e quinhentos por carneiro, porco ou bode…
– Quanto ao preço, seu Pedro, pagarei muito mais do que isso. Quero que o senhor garanta que o capado sobreviva. Quero ele vivo depois do seu serviço…
– Ô, seu coronel, meu serviço é garantido. Nenhum animal que passou por minhas mãos morreu da capação. Mas, para eu garantir isso, tenho de fazer o serviço na lua certa…
– Estou ciente disso. Amanhã entra a lua nova, não é?
– É sim, senhor…
– Então vou convidar o senhor, seu Pedro, para ficar aqui na fazenda até a hora do seu serviço.
– Mas, coronel, e os outros sitiantes que estão me esperando?
– Eles vão continuar esperando. Eu pago em dobro e o senhor não vai perder nada.
Dito isso, o capataz mostrou a Pedro o quarto onde ficaria, enquanto outros homens carregavam a bagagem do hóspede compulsório.
Na noite do dia seguinte, vieram buscá-lo. Verificaram se levava os instrumentos necessários para a castração e embarcaram numa caminhonete que rodou por estradas rurais até parar em frente a uma casa.
Ao entrar no imóvel, Pedro viu, em um quarto, um homem nu, amordaçado, com pés e mãos amarrados aos cantos da cama. Sem dizer palavra, o capataz apontou a vítima para o alemão, que ficou mais vermelho do que o normal.
Superando os ruídos emitidos pelo homem amordaçado, Pedro ouviu o som de uma arma sendo engatilhada perto de sua cabeça.
– Eu trabalho com capação de bicho. De gente, não…
– Esse é o serviço que o coronel quer que seja feito. Ouviu?
Pedro foi embora ainda naquela noite e nunca mais voltou a ser visto na região.
Conta a lenda que quem também desapareceu de Vila Pouca foi o Quelé da Francina, que se gabava, quando bebia, de ter dado uns amassos na Candoca, a filha caçula do coronel.
[Crônica CCXLIII/2026]

