
Espelho meu, existe alguém mais assustado que eu? (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Edição Phoroom)
Um dos meus medos é perder o contato com a realidade e ficar louco. Já ouvi relatos de pessoas que chegaram perto de atravessar o espelho e recuaram a tempo de não ficar do lado de lá.
E, por falar em espelhos, este é um objeto que atrai a minha atenção por ter sido associado a inúmeras superstições desde a minha mais tenra idade. A história da madrasta da Branca de Neve está aí para não me deixar mentir.
Por isso, tenho pelos espelhos, físicos ou metafóricos, o maior respeito e admiração. E um tantinho de medo também, não nego. O certo é que evito passar diante daqueles espelhos que distorcem as imagens, apesar de acreditar que nada do que se vê neles é realmente real. Aí recordo que vampiros, fadas, gênios da lâmpada e alguns outros seres sobrenaturais não são refletidos em espelhos.
Vou relacionar algumas superstições ligadas a eles de que me lembro neste momento: não deixar que um bebê se olhe no espelho, senão não desenvolverá a capacidade de falar; quebrar espelhos dá sete anos de azar; não se olhar em espelho quebrado nem conservá-lo em casa, pois isso atrai coisas ruins para o lar, somando-se aos sete anos de azar por ter quebrado o objeto; não dormir com espelhos voltados para a cama, para evitar pesadelos (essa eu não observo).
Na casa das minhas avós, durante tempestades com raios, os espelhos eram cobertos para não atraí-los. E há ainda aquela crença que considero a mais perturbadora: a de que os espelhos são portais para outra dimensão, assunto com o qual iniciei esta crônica.
Foi escrevendo esta breve reflexão sobre os espelhos (o trocadilho foi involuntário) que me lembrei de uma madrugada em que levantei para ir ao banheiro. Ao me dirigir ao reservado, vi que havia outra pessoa no meu quarto. Com o susto, o estado de sonambulismo em que me encontrava desapareceu, e estanquei o passo. Ao me virar para confirmar a suspeita, o invasor também olhava para mim.
Foram os milésimos de segundo mais compridos que já vivi, até compreender que eu havia me assustado com a minha própria imagem refletida no espelho do guarda-roupa.
Era o espelho se vingando de mim por acreditar em tanta coisa ruim a respeito dele.
[Crônica CCXLII/2026]
