03 de novembro de 2026

Macondo do sertão: a resenha de hoje

Por José Carlos Sá

(Montagem Nano Babana 2/JCarlos)

O livro A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli (Companhia das Letras), lançado há 12 anos, só chegou ao meu conhecimento há cerca de 15 dias, quando a Marcela compartilhou comigo um post do escritor Pedro Bandeira recomendando a obra.

Como confio nos dois, providenciei a compra do livro sem qualquer questionamento. Só depois descobri que o romance fez enorme sucesso desde o lançamento, continua entre os mais procurados em plataformas digitais como o MEC Livros e já ultrapassou a marca de 450 mil exemplares vendidos. Onde eu estava que não tinha ouvido falar desse livro antes?

Com ingredientes do realismo fantástico, gênero de que tanto gosto, temperados pelo cenário típico do sertão nordestino e pelos diz-que-me-dizem das pequenas cidades do interior, onde todos sabem da vida de todos, mas guardam segredos por autoproteção, A Cabeça do Santo é daqueles livros pelos quais a gente se apaixona antes mesmo de começar a leitura. Foi assim comigo.

Ao citar Macondo no título desta resenha, a cidade fantástica criada por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão, onde tudo pode acontecer, não estou exagerando.

A história se passa em Candeia, uma cidade quase fantasma marcada pela presença de uma gigantesca estátua de Santo Antônio. Ou melhor, pela ausência dela. A obra foi projetada para ter vinte metros de altura e atrair multidões de romeiros. A lógica do prefeito era simples: onde há peregrinos, o dinheiro circula. E muito.

Ao anunciar o monumento, ele sonhava transformar Candeia na terceira terra de Santo Antônio: “Primeiro vem Lisboa, onde ele nasceu. Depois vem Pádua, onde morreu. E agora Candeia, onde voltou a viver para sempre!”.

Mas um erro interrompeu o projeto. A cabeça da estátua ficou separada do corpo e, para muitos moradores, aquilo foi o suficiente para amaldiçoar a cidade. Até o nome do santo parecia ter se tornado impronunciável.

É em torno dessa cabeça abandonada que o romance se desenvolve. Quando um jovem encontra abrigo dentro dela, descobre também um dom extraordinário: ouvir as orações das mulheres que pedem ajuda a Santo Antônio para encontrar um marido.

A partir daí, Candeia renasce. E, como acontece em Macondo, passa a ser palco de acontecimentos insólitos, divertidos e profundamente humanos.

Na vida real, eu havia tomado conhecimento da existência da famosa estátua sem cabeça pouco antes de receber a indicação do livro. Achei a história curiosa, pesquisei um pouco sobre o assunto e, depois da leitura, entendi perfeitamente o que se passou pela cabeça de Socorro Acioli quando conheceu aquele episódio.

Mais tarde descobri que essa lembrança, guardada por anos, acabou surgindo durante uma oficina literária em Cuba da qual participou Gabriel García Márquez. Foi ele quem incentivou a autora a desenvolver a ideia que daria origem ao romance.

É por isso que eu sempre repito por aqui: a vida consegue ser ainda mais surpreendente do que a ficção.

Recomendo muito.

SERVIÇO

O quê: A Cabeça do Santo
Autora: Socorro Acioli
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 74,90 no site da editora ou gratuitamente, por empréstimo, na plataforma MEC Livros
[Resenha XXIX/2029]