
Chineses estão fugindo da solidão adotando bebês-tijolo (Imagem criada pelo assistente Gemini AI/Prompt IAgo Copilot e JCarlos)
Na minha infância, influenciado pelo momento musical ditado por Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa a partir do programa Jovem Guarda, eu também cantava o refrão da música de Bobby de Carlo: “Você é meu amorzinho, você é amorzão, você é o tijolinho que faltava na minha construção. É verdade, é verdade, é verdade, iiiii”. (O “iiiii” fazia parte da performance.)
Estou desenterrando essa música da memória para comentar a mais nova doidiça vinda do outro lado do mundo, da surpreendente China. Digo surpreendente porque, mesmo com mais de cinco mil anos de história, sempre aparece uma coisa nova para nos causar o mesmo espanto que Marco Polo dizia ter sentido nos 17 anos em que esteve por lá.
Já comentei aqui sobre o cão-robô Argo, que está sendo comercializado como animal de estimação, e sobre um aplicativo que confere se o cliente continua vivo. Agora, os chineses se superaram.
Chega-nos, pelo jornal britânico The Guardian, a notícia de que a moda naquele país, entre pessoas que moram sozinhas, é “criar um tijolo”. Não faça essa cara de espanto, dileta leitora, estimado leitor.
Diz a reportagem que o regime de trabalho dos chineses é um poucodiferente do nosso. Alguns trabalham na chamada “escala 996”, que consiste em trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana, totalizando 72 horas semanais. Puxado, não?
Então, sem muito tempo para se dedicar a si próprios ou a animais de estimação, passaram a criar tijolos-bebês, que são regados com água uma vez por dia. A graça está em acompanhar o crescimento dos fungos e musgos na peça de barro.
A reportagem reproduz a opinião de um desses “pais de tijolos”, que diz: “Um tijolo me dá uma sensação de certeza que me parece muito mais sólida do que muitos relacionamentos”. Os psicólogos chamam isso de ‘companheirismo emocional de energia zero’. Ele satisfaz sua necessidade de companhia sem exigir nenhuma obrigação de retribuir o amor.
Depois dos bebês reborn, do cachorro-robô e, agora, dos tijolos de estimação, o que mais virá nesse nosso mundo complexo e desconhecido? Bobby de Carlo cantava por amor. Os chineses resolveram levar a ideia ao pé da letra.
[Crônica CCXLI/2026]
