Estávamos no final da década de 1960. Meu irmão Paulo Roberto (Paíto) e eu fazíamos parte do Movimento Escoteiro, no Grupo Antônio Mourão Guimarães, mais conhecido como Grupo da Baleia. A Baleia, no caso, era o nome da antiga fazenda onde ficava a nossa sede. Sessenta anos depois, está tudo quase igual ao que era no nosso tempo.
O time de futebol dos escoteiros era convocado sempre que havia algum festejo e, nessas ocasiões, recebia equipes convidadas, geralmente formadas por garotos das comunidades vizinhas.
Paíto fazia parte do time titular, enquanto eu, perna-de-pau assumido, integrava a torcida organizada, cujo barulho produzido atrapalhava mais do que incentivava a nossa equipe.
Em um desses jogos, o time visitante levou, como reforço, uma “arma secreta” cuja simples menção já desestabilizou o psicológico dos nossos jogadores. Um escoteiro, vizinho do organizador do plantel adversário, serviu de “olheiro” e, antes da partida, deu a notícia com uma circunspecção tal que parecia estar comunicando uma sentença de morte.
Em voz baixa e tom solene, informou:
– Eles vão trazer o Beto, que joga no Cruzeirinho!
O silêncio foi total.
O Cruzeirinho era a escolinha de futebol do Cruzeiro Esporte Clube, que naquela época era o melhor time do Brasil. Havia derrotado o Santos de Pelé na decisão da Taça Brasil, vencendo por 6 a 2 no jogo de ida e por 3 a 2, de virada, no Pacaembu. Pelé marcou o primeiro gol daquela partida.
Daí o clima de velório que se abateu sobre a escoteirada.
O tal Beto pegava na bola e intimidava todo mundo do nosso time. Os jogadores pareciam receosos até de chegar perto dele para dar combate.
Não me lembro do placar final do jogo Escoteiros da Baleia x Time do Beto. O que ficou registrado na minha memória, como um videotape, foi o momento em que meu irmão, vindo não sei de onde, deu um chega-pra-lá no craque do Cruzeirinho. Surpreendido, o garoto perdeu o domínio da bola, e Paíto tratou logo de despachá-la para longe.
O encanto foi quebrado.
A partir daí, bastava o Beto pegar na bola para a nossa torcida organizada entrar em ação:
– Pega ele!
– Ele não é de nada!
– Vai pra cima, Baleia!
Do pouco que gosto de futebol, essa é uma das partidas que guardo com mais nitidez na memória.
[Crônica CCXL/2026]

