
Para meu espanto, o toco de lápis não só brotou, como frutificou (Imagem criada pelo assistente Meta AI/Edição Photoroon/BN JCarlos)
A minha filha chegou toda contente, me chamando para mostrar a experiência que estava fazendo. Sem querer interromper o jogo de paciência no tablet, eu disse:
— Que legal, depois eu vou lá ver…
Mas ela insistiu, tirou o aparelho das minhas mãos e me puxou pela manga da camisa.
Na mesinha onde fazia as tarefas de casa, ela me mostrou o vaso onde estava plantada uma vitória (Dracaena mansoniana), que é da família da espada-de-são-jorge, com a diferença de que suas folhas são muito mais largas. Olhei para a folhagem e não vi nada demais, a não ser que a terra estava seca, precisando ser aguada.
— Não está vendo? Plantei um lápis no vaso…
Só então notei que havia um toco de lápis enterrado na terra.
— É essa a sua experiência? O que você espera que vá acontecer?
— Uai! Vai nascer um pé de lápis! O lápis não é de madeira? Ele vai brotar e nascer uma árvore que vai dar muitos lápis, de todas as cores, e você não vai precisar mais comprar lápis para mim…
Sorri e tentei explicar que a madeira usada no lápis havia passado por vários processos industriais que a deixaram completamente estéril e que ela não brotaria, muito menos produziria outros lápis. Pacientemente expliquei como os lápis são feitos e gastei toda a minha argumentação, mas a menina estava irredutível.
Aprendi, ao longo da vida, que é melhor ter paz do que ter razão e sugeri que ela regasse todos os dias as duas plantinhas: a vitória e o pé de lápis.
A vida seguiu e, algum tempo depois, a cena descrita no começo desta crônica se repetiu, tal e qual. Dessa vez, a urgência era maior e pensei até que tivesse acontecido algo grave. Venci a força da gravidade, levantando-me da poltrona onde estava deitado de um pulo, e a segui para ver o que havia acontecido.
— Olha, papai, o meu pé de lápis já está com frutos…
Olhei e não acreditei. O toco de lápis havia brotado e estava com quatro folhas e, do fino tronco, brotavam também pauzinhos finos e retos, do diâmetro de um palito de dente, nos quais dava para ver uma substância preta no miolo.
Grafite? Não é possível.
Retirei o vaso do cachepô e o levei para a área externa, examinando-o por todos os lados e ângulos. Parecia mesmo que o toquinho de lápis havia reproduzido outros lápis, como se fossem frutos.
Mas aquilo não era possível. Eu deveria estar dormindo ou era efeito das injeções para emagrecer. Minha filha me olhava feliz, pela experiência ter dado certo e pela minha perplexidade.
Eu disse que iria arrancar o toco de lápis original para ver as raízes, mas ela não deixou e levou o vaso de volta para o lugar de origem, enquanto eu permanecia imóvel, sem encontrar explicação para aquele fenômeno.
Foi quando senti alguma coisa áspera no rosto. Passei a mão e notei uma umidade pegajosa. Então abri os olhos e acordei com o cachorro lambendo a minha cara, enquanto, da cozinha, me chamavam para o almoço…
[Crônica CCXXXVI/2026]
