20 de outubro de 2026

Cornélio Pires – o pai dos caipiras – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

Cornélio Pires (1884 – 1958) foi pesquisador e divulgador da música caipira no Brasil (Reprodução)

Eu já havia lido e ouvido falar de Cornélio Pires. Aliás, o saudoso Rolando Boldrin sempre o mencionava nos programas que apresentava, lembrando que Cornélio foi um grande pesquisador da música caipira, além de jornalista, escritor regionalista, folclorista, empresário e palestrante.

Nascido em Tietê (SP), em 1884, mudou-se para São Paulo, onde tentou ingressar na Faculdade de Farmácia. Não conseguindo, e para garantir o próprio sustento, foi trabalhar no jornal O Comércio de São Paulo. Posteriormente, passou por outros periódicos e, em 1910, iniciou a publicação de livros sobre a cultura do interior paulista, despertando a atenção para um tema até então pouco valorizado.

O livro que li sobre ele, O Espírito de Cornélio Pires, psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira (Editora da Federação Espírita Brasileira, 4ª ed., Rio de Janeiro, 2002), traz uma extensa “Nota de Limiar”, escrita por Elias Barbosa, na qual é relatada a conversão do pesquisador do protestantismo ao espiritismo.

Capa da 4ª edição do livrinho com a obra psicografada pelos mediuns Chico Xavier e Waldo Vieira (Reprodução)

A temática dos sonetos e das quadrinhas presentes no livreto está relacionada à reencarnação e à vida após a morte, sempre utilizando o “dialeto caipira” de forma saborosa e bem-humorada, exatamente como o apresentador da obra descreve o autor.

Separei um soneto e algumas trovas, que reproduzo a seguir para compartilhar com meus queridos leitores.

Bota-fora de Nhô Chico

Caiu Nhô Chico morto, ao fim da janta,

Papou tatu ervado e foi caipora.

O povo segue o enterro, reza e chora:

– Coitado de Nhô Chico Couro D’Anta!

 

O avarento vivia de penhora.

Sovinaria nele era tanta,

Que engastalhar o cuspe na garganta

Com pena de jogar o cuspe fora…

 

Mas Nhô Chico sabia tanto ensino!

Assunto o céu sereno e não atino

por onde sobe ele e se agasalha…

 

Pasmo, vejo o caixão roxinho perto;

Nhô Chico está no corpo, de olho esperto,

Caçando aflito um bolso na mortalha…

TROVAS:

Reencarnação!… Vejo agora

O suplício de João de Nava…

Renasceu filho da nora, 

Mulher que ele detestava

…

Lalau liquidou Quinquim

Com veneno no mingau,

Mas hoje Quinquim é o neto

Que vai herdar de Lalau.

…

Quem mata o tempo na vida,

Por muito que se conforte,

Acaba enterrado em vida

Muito tempo antes da morte.

…

Muito herói parece quadro

Composto de traço incerto

Que só pode ser louvado

Se não é visto de perto

…

 

Grande inscrição de lembrança

na campa de João de Souza:

– Afinal aqui descansa

Quem nunca fez outra cousa.

…

Quem lhe fala, meu amigo,

Dos tristes defeitos meus,

Se vem conversar comigo

Chega falando dos seus.

…

Onde a força manda em tudo,

Não dês conselhos em vão.

No terreno da galinha,

Barata não tem razão.

Recomendo o livrinho que pode ser encontrado facilmente na Amazon ou em outro portal na internet.

[Resenha XXVII/2026]

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Caipira Cornélio Pires Espiritismo Música caipira Rolando Boldrin São Paulo Tietê 

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