Eu já havia lido e ouvido falar de Cornélio Pires. Aliás, o saudoso Rolando Boldrin sempre o mencionava nos programas que apresentava, lembrando que Cornélio foi um grande pesquisador da música caipira, além de jornalista, escritor regionalista, folclorista, empresário e palestrante.
Nascido em Tietê (SP), em 1884, mudou-se para São Paulo, onde tentou ingressar na Faculdade de Farmácia. Não conseguindo, e para garantir o próprio sustento, foi trabalhar no jornal O Comércio de São Paulo. Posteriormente, passou por outros periódicos e, em 1910, iniciou a publicação de livros sobre a cultura do interior paulista, despertando a atenção para um tema até então pouco valorizado.
O livro que li sobre ele, O Espírito de Cornélio Pires, psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira (Editora da Federação Espírita Brasileira, 4ª ed., Rio de Janeiro, 2002), traz uma extensa “Nota de Limiar”, escrita por Elias Barbosa, na qual é relatada a conversão do pesquisador do protestantismo ao espiritismo.

Capa da 4ª edição do livrinho com a obra psicografada pelos mediuns Chico Xavier e Waldo Vieira (Reprodução)
A temática dos sonetos e das quadrinhas presentes no livreto está relacionada à reencarnação e à vida após a morte, sempre utilizando o “dialeto caipira” de forma saborosa e bem-humorada, exatamente como o apresentador da obra descreve o autor.
Separei um soneto e algumas trovas, que reproduzo a seguir para compartilhar com meus queridos leitores.
Bota-fora de Nhô Chico
Caiu Nhô Chico morto, ao fim da janta,
Papou tatu ervado e foi caipora.
O povo segue o enterro, reza e chora:
– Coitado de Nhô Chico Couro D’Anta!
O avarento vivia de penhora.
Sovinaria nele era tanta,
Que engastalhar o cuspe na garganta
Com pena de jogar o cuspe fora…
Mas Nhô Chico sabia tanto ensino!
Assunto o céu sereno e não atino
por onde sobe ele e se agasalha…
Pasmo, vejo o caixão roxinho perto;
Nhô Chico está no corpo, de olho esperto,
Caçando aflito um bolso na mortalha…
TROVAS:
Reencarnação!… Vejo agora
O suplício de João de Nava…
Renasceu filho da nora,
Mulher que ele detestava
…
Lalau liquidou Quinquim
Com veneno no mingau,
Mas hoje Quinquim é o neto
Que vai herdar de Lalau.
…
Quem mata o tempo na vida,
Por muito que se conforte,
Acaba enterrado em vida
Muito tempo antes da morte.
…
Muito herói parece quadro
Composto de traço incerto
Que só pode ser louvado
Se não é visto de perto
…
Grande inscrição de lembrança
na campa de João de Souza:
– Afinal aqui descansa
Quem nunca fez outra cousa.
…
Quem lhe fala, meu amigo,
Dos tristes defeitos meus,
Se vem conversar comigo
Chega falando dos seus.
…
Onde a força manda em tudo,
Não dês conselhos em vão.
No terreno da galinha,
Barata não tem razão.
Recomendo o livrinho que pode ser encontrado facilmente na Amazon ou em outro portal na internet.
[Resenha XXVII/2026]

