09 de outubro de 2026

Ninguém mais escreve cartas

Por José Carlos Sá

Despertando a nostalgia das cartas de anigamente (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Foto JCarlos)

Vi um anúncio de captação de recursos, uma vaquinha eletrônica, com o seguinte apelo: “Um clube para quem sente saudade da experiência de encontrar uma carta na caixa de correio”. Instantaneamente, despertou em mim uma saudade dos tempos em que as cartas eram um dos principais meios de comunicação.

Tempos, também, em que os Correios eram uma das instituições mais confiáveis do Brasil, no mesmo nível de credibilidade da Igreja e da Justiça.

Bons tempos aqueles.

Voltando às cartas. Sempre achei a troca de correspondências uma atividade meio mágica. Aprendi com a minha avó a gostar de escrever cartas, primeiro em rascunho, fazer o endereçamento no envelope, levá-las ao correio e aguardar, ansioso, pela resposta.

Era frustrante quando uma correspondência era devolvida porque o carteiro não havia encontrado o destinatário ou o endereço, mas isso era raro.

Semanas ou meses depois, chegava a resposta e, no meu caso, eu logo começava a elaborar a réplica, para não deixar o assunto esfriar. Quanto mais cedo respondia, mais rápido voltava a resposta seguinte.

Correspondi-me com escoteiros de outros estados e de países de língua portuguesa, como Portugal e Angola, pouco depois da independência deste último. Também mandava cartas para candidatas a namorada e, depois, para a noiva. Quando fui morar em Porto Velho, enviava longas cartas para os filhos, contando como era a vida por lá e o que eu fazia. Era quase um diário epistolar.

Ainda no final da década de 1970, fiz o curso de “Correspondência Comercial”, por correspondência, claro, oferecido pelo Senac. Ao final, recebi o certificado acompanhado de um bilhete do instrutor, que elogiou meu aproveitamento. Eu ainda não sabia que seria jornalista poucos anos depois.

Ao pensar nesse meu passado missivista, excluo o período de quatro anos em que trabalhei como carteiro, pois a função do departamento em que estava lotado era fazer a entrega de cobranças bancárias, intimações de cartórios e até contas de água da concessionária de saneamento de Contagem (MG).

Pensando com o distanciamento que o tempo nos dá, acho que, como jornalista, nunca deixei de escrever cartas. Cada matéria, cada release, cada crônica nada mais era do que eu contando alguma coisa da forma como a via e como precisava transmiti-la a alguém que iria ler. Sempre fico aguardando a resposta, que às vezes, no caso das crônicas, surge anos depois, quando eu já nem me lembrava mais do assunto.

Melhor assim.

[Crônica CCXXIII/2026]

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Cartas Correios Correspondência Jornalismo Porto Velho Senac 

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