05 de outubro de 2026

Baú do Zé – A lição dos sacos de juta

Por José Carlos Sá

O que é essencial para um pode não ser para outro (Reprodução Facebook)

Quando vi a imagem que ilustra esta crônica, assinada pelo cartunista e ilustrador croata Tomo (cujo nome verdadeiro é Tomislav Spikić), lembrei-me de um fato ocorrido em Rondônia, no final de 1986, e que conheci por intermédio de um dos policiais do destacamento local.

O povoamento da porção da Amazônia onde hoje se localiza o estado de Rondônia teve início ainda na década de 1960, por meio de iniciativas de empresas colonizadoras privadas, sendo posteriormente ampliado pelo Governo Federal.

Em ambas as frentes de ocupação, os territórios dos povos originários não foram respeitados. Colonos foram assentados em terras indígenas ou muito próximas delas, provocando interferências diretas e indiretas na vida das comunidades.

Um dos povos cujo território, até hoje, não foi plenamente assegurado é o dos Uru-Eu-Wau-Wau. A ONG Conectas informa que a desintrusão (retirada de não indígenas) da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, permanece suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal, por determinação do ministro Gilmar Mendes, enquanto o caso segue em processo de mediação e apuração dos conflitos territoriais.

Se em 2026 a situação ainda é essa, imagine há quarenta anos, em plena efervescência da chegada de migrantes, ex-boias-frias e ex-sem-terra vindos do Sul do país para ocupar as ‘terras incultas’ da Amazônia.

Foi nesse contexto que ocorreu o episódio despertado pela caricatura do croata Tomo.

O então governador Ângelo Angelin (1985-1987) cumpria uma extensa agenda de inaugurações e visitas, e sua presença estava prevista para aquele fim de semana em Alta Floresta do Oeste. Uma equipe precursora de segurança chegou ao município, recém-criado, na véspera da visita e realizou uma varredura, detendo pessoas consideradas suspeitas e recolhendo armas dos mais variados tamanhos e calibres.

O que mais chamou a atenção dos policiais encarregados do mapeamento de riscos, e que me foi contado por um deles, foi um episódio ocorrido pouco antes da chegada da equipe. Um colono que retornava da roça com o filho, numa carroça, foi cercado por três ou quatro indígenas armados com arcos e flechas. Eles mandaram pai e filho descerem do veículo, retiraram quatro sacas de arroz da carga, despejaram o produto na estrada e fugiram levando apenas os sacos de juta.

Os “sobreviventes” correram para a cidade e somente mais tarde retornaram para tentar recolher o arroz desprezado pelos assaltantes. Esse episódio marcou minha primeira visita a Alta Floresta do Oeste, e a lembrança dele foi despertada pela caricatura. 

Que coisa, não? O valor das coisas depende de quem as vê e das necessidades de cada um.

[Crônica CCXIX/2026]

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