02 de outubro de 2026

Boate Azul

Por José Carlos Sá

Uma cena do passado ao som de Bruno e Marrone (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)

Quando embarquei no Uber, estavam tocando os primeiros acordes de “Boate Azul”, na versão de Bruno & Marrone. Depois de me identificar, o motorista perguntou se a música me incomodava. Como minha resposta foi negativa, ele aumentou um pouco o volume e se concentrou na direção e na melodia.

Ao chegarmos à Via Expressa, como é normal no início da manhã, estava tudo parado. A música terminou e ele a reiniciou. Decidi saber a história que ligava o meu condutor àquela que é considerada o hino do brega, pois os carros não se mexiam, eu queria passar o tempo e, quem sabe, ainda conseguir um tema para uma crônica.

– O senhor gosta mesmo dessa música? Lancei a isca.
– Está incomodando? Eu troco… – disse em voz baixa, olhando-me pelo espelho retrovisor.
– Não, não me incomoda. Eu também gosto dela – menti.
– Essa música me faz lembrar uma fase da minha vida e hoje, antes de ligar o aplicativo, eu me lembrei de ouvi-la. O senhor é o meu primeiro passageiro, e eu tinha acabado de encontrá-la no pen-drive quando o senhor embarcou.

Me acomodei no banco do carro e acompanhei a história, ouvindo a narrativa do motorista, com “Boate Azul” tocando como trilha de fundo.

– Antes de trabalhar com aplicativo, fui, por muitos anos, motorista de táxi. De quinta-feira a domingo, eu fazia ponto em frente a uma boate chamada “Deusa Diana – Casa de Drink’s”, com apóstrofo e tudo. A casa noturna abria às seis da tarde e fechava às seis da manhã. Mas o movimento bom era entre duas e quatro da madrugada.

– Quando eu considerava que já tinha trabalhado demais, em vez de ir embora, estacionava o carro e entrava na boate para tomar um conhaque e, se possível, conversar com uma mulher, sair com ela… Eu era solteiro, sem compromissos…

– Mas, àquelas horas da madrugada, eu só encontrava o restolho. Desculpe falar assim, mas encontrava apenas aquelas mulheres que ninguém quis. Muitas já estavam tão bêbadas que não conseguiam conversar. Eu ficava por ali, naquele ambiente escuro, cheio de fumaça, com cheiro de suor misturado ao álcool. E sempre estava tocando “Boate Azul”, e eu bebendo, afogando as minhas mágoas, como dizem.

– É uma fase ruim da minha vida, da qual me lembrei hoje. Mas teve um momento engraçado, se é que posso dizer assim. Numa madrugada de sábado, bebi acompanhado de uma mulher que disse se chamar Vera. O nome verdadeiro era Verônica, mas ela não gostava dele. Disse que lembrava a Paixão de Cristo.

– Ela tinha uma voz agradável e gostava de poesia. Citou alguns autores que conheço… Era um papo bom, e o tempo passou sem que percebêssemos. Chamei-a para sair e continuar a conversa em outro lugar etc. Ela topou, e eu paguei a conta. Quando saímos, já era uma manhã daquelas de verão em que o sol nasce mais cedo.

– Quando saímos da escuridão para a luz, foi que vi a minha companheira. Ela usava maquiagem em excesso e, ao chegar ao clarão do sol, tive a nítida impressão de que o rosto dela craquelava inteiro, como naqueles filmes em que o vampiro vê a luz do dia e se desfaz. Dei uma desculpa qualquer e a deixei na calçada, indo embora sozinho.

– Me arrependo do que fiz, mas não sei se foi efeito da bebida, da qual exagerei, ou se aquilo aconteceu mesmo.

– Por isso estou ouvindo Bruno & Marrone cantando “Boate Azul”, como uma forma de arrependimento por aquilo que fiz naquela manhã…

Ouvi a história sem rir, e o restante da viagem transcorreu em silêncio.

[Crônica CCXVI/2026]

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Boate Azul Bruno e Marrone Uber Vida noturna 

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