28 de setembro de 2026

Óleo de baleia: mito, história e memória das armações catarinenses

Por José Carlos Sá

Armação de São Joaquim de Garopaba – Pintura atribuída a Jean-Baptiste Debret – 1827. A data que consta na legenda é a data de concessão da armação pela Coroa Portuguesa (Reprodução)

Na próxima vez em que você visitar um prédio histórico dos séculos XVII ou XVIII e o guia disser que “usaram óleo de baleia misturado na argamassa para assentar as pedras”, levante as sobrancelhas e franza o cenho, em sinal de dúvida.

Eu também ouvi muito essa história e a tinha como verdadeira, já que enxergava um material escuro em meio à argamassa das construções mais antigas.

Esse mito caiu por terra durante o V Seminário Internacional de Armações Baleeiras de Santa Catarina, do qual participei na semana passada no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

Mesmo citado por alguns palestrantes, embasados em bibliografia sobre o período da pesca (hoje se usa o termo “caça”, por a baleia ser um mamífero) na costa catarinense, a prática de misturar óleo de baleia à argamassa foi desmentida com argumentos científicos pelo arquiteto aposentado da UFSC, Roberto Tonera.

Segundo ele, ensaios laboratoriais feitos na universidade mostraram que as amostras de argamassa misturadas com óleo de baleia ficaram 40 vezes menos adequadas ao uso na construção civil. “Não é 40%, é 40 vezes menos”, ressaltou Tonera.

O arquiteto Roberto Tonera desmistificou a lenda do uso do óleo de baleia na argamassa das construções antigas (Foto JCarlos)

O arquiteto, que trabalhou no Departamento das Fortalezas da Ilha de Santa Catarina, lembra que nas construções era usada a cal proveniente das conchas armazenadas nos sambaquis (ou casqueiros) do litoral. “A cal endurece à medida que recebe o gás carbônico da atmosfera. Ou seja, quanto mais o tempo passa, mais ela enrijece”, explicou o professor.

Armações

O ciclo da caça às baleias no litoral de Santa Catarina foi detalado pela professora Nelma Baldin, do IHGSC (Foto JCarlos)

O seminário discutiu a importância econômica e social das antigas armações baleeiras, concessões dadas pela Coroa Portuguesa e, depois, pelo Império Brasileiro. Eram locais para onde se levavam as baleias caçadas, para serem descarnadas e ter o óleo derretido e enviado à Europa. Os empresários recebiam licença para construir as plantas, explorar o comércio e, ao fim do contrato, entregar todas as benfeitorias ao governo.

O ciclo da caça de baleias começou em 1742, com a instalação da primeira armação baleeira, a de Nossa Senhora da Piedade, no atual município de Governador Celso Ramos. Também foram instaladas armações na Ilha de Santa Catarina (Sant’Ana da Lagoinha, no sul da Ilha), em Penha (São João Batista de Itapocorói) e em Imbituba (São Joaquim de Garopaba).

O auge da caça às baleias para abastecer as armações foi de 1741 a 1800. A decadência começou em 1801, quando não houve mais novos contratos. O encerramento das atividades ocorreu em 1828, ao se constatar que não havia mais cetáceos a serem caçados na região, e as armações foram desmontadas, conforme destacou a professora Nelma Baldin, membro emérita do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

Giana Souza, escritora, falou sobre outro subprodto das baleias: o âmbar (Foto JCarlos)

Durante o seminário também ouvimos palestras sobre a mão de obra de escravizados usada na pesca e na fase industrial da atividade; os subprodutos extraídos da baleia, como as barbatanas — usadas nos espartilhos —, os ossos e o âmbar, tema abordado pela amiga escritora Giana Schmitt de Souza.

O jornalista português José Serra falou mostrou as diferenças entre o turismo de observação de baleias existentes entre o Brasil e Portugal (Foto JCarlos)

Hoje as baleias são preservadas e há turismo de observação dos animais, que voltaram a frequentar o mesmo litoral onde eram caçados, mortos e esquartejados. O convidado do seminário, o jornalista português José Serra, além de falar sobre a caça de baleias nos Açores, mostrou que em Portugal o turismo de avistamento é feito com as pessoas embarcadas e a poucos metros dos cetáceos.

Para mim, o seminário sobre armações foi uma imersão em uma parte da história de Santa Catarina que eu só conhecia por referência nos livros que já li e nas ruínas da Armação da Piedade, que visitamos desde 2012, mas cuja função real eu desconhecia.

Desde a primeira vez que fomos à Praia da Armação, não encontrei placas explicativas. As ruínas estão lá, perto da praia, fazendo parte da paisagem, mas inúteis em termos de informação para quem não sabe do que se trata.

Agora eu já sei — e posso até me candidatar a ser guia de turistas…

[Crônica CCXI/2026]