17 de setembro de 2026

À procura do Marechal

Por José Carlos Sá

Marechal-de-campo Guilherme Xavier de Souza (Coancestors.familysearch/Reprodução)

Meu primeiro contato com o “Marechal Guilherme” foi ao tentar estacionar na rua que o homenageia no centro de Florianópolis, quando, em março de 2019 — recém-chegados a Santa Catarina —, fomos assistir a uma palestra do querido professor Abel Sidney. Arquivei o nome do marechal no sótão do meu subconsciente para uma futura pesquisa.

Depois, deparei-me novamente com o militar ao ler a biografia do poeta simbolista Cruz e Sousa, onde consta a seguinte passagem: “(…) [João da Cruz e Sousa] Era filho de escravos que foram alforriados por seu senhor, o coronel (depois marechal) Guilherme Xavier de Sousa, de quem João da Cruz recebeu o último sobrenome e a proteção”.

Recentemente, ao fazer pesquisas para escrever sobre as aventuras do padre Macário em São José, cruzei mais uma vez com o nome do marechal, desta vez com um atrativo maior: ele havia nascido em terras josefenses. Pensei: agora é a hora de saber quem foi essa pessoa.

Guilherme Xavier de Sousa nasceu na localidade de Praia Comprida, na então Freguesia de São José, em 3 de julho de 1818, pertencente à época à capital da Província de Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro. Teve a vida dedicada ao serviço militar, ingressando em 1834, aos 16 anos, como aluno, e galgando os postos até ser promovido a Marechal de Campo, em 1867.

Combateu na Guerra dos Farrapos (ou Revolução Farroupilha), entre 1835 e 1845, tendo atuado também na Revolução Liberal (1842). Seguiu para a Guerra do Paraguai como tenente-coronel, em março de 1865, comandando o 22º Batalhão de Infantaria de Linha, formado pelos “Voluntários da Pátria” recrutados em Santa Catarina. Pouco depois, assumiu o comando do 15º Batalhão de Infantaria.

Sua atuação na Guerra do Paraguai pouco aparece nos livros em que pesquisei, salvo na fase final do conflito, quando substituiu Caxias no comando do Exército Brasileiro.

Guilherme Xavier, na galeria dos ex-governadores do Rio Grande do Sul (Reprodução)

O militar exerceu o comando de várias unidades no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Em sua biografia, constam dois mandatos como deputado da Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina (1864-1865 e 1868-1869). Em 1868, já marechal, foi Comandante de Armas da Província do Rio Grande do Sul, onde também atuou como presidente provincial entre 14 de julho e 1º de agosto de 1868, por exatos 18 dias.

No início de 1869, recebeu ordens do ministro da Guerra, Manuel José Vieira Tosta, Barão de Muritiba, para substituir o Marquês de Caxias como Comandante-Chefe do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai. Guilherme exerceu esse cargo de 19 de janeiro a 19 de abril de 1869, quando passou o comando ao genro do imperador D. Pedro II, Gastão de Orléans, Conde d’Eu.

O marechal retornou então para casa, já apresentando sinais de cansaço e de doenças adquiridas nos pântanos paraguaios, vindo a falecer em 21 de dezembro de 1870, na cidade de Desterro.

Poucas homenagens

A rua que deu origem à pesquisa (Foto JCarlos)

Além de dar nome a uma rua no centro de Florianópolis e de figurar em uma citação — incorreta — no monumento aos catarinenses mortos em combate na Guerra do Paraguai, o Exército Brasileiro o homenageia batizando o 10º Batalhão de Infantaria Leve de Montanha, em Juiz de Fora (MG), como “Batalhão Marechal Guilherme Xavier de Sousa”. 

O nome também está no prédio que sedia os postos de recrutamento e identificação e a seção de atendimento a inativos e pensionistas do Exército, situado na mesma rua Marechal Guilherme, bem próximo de onde ficava a chácara em que o militar residia.

Quando iniciei esta pesquisa, minha intenção era entender por que esse “ilustre josefense” não era lembrado nem homenageado por seus conterrâneos. Não foi preciso muito para compreender a razão: embora tenha nascido aqui, sua trajetória adulta — descontados os períodos de ausência impostos pela farda — construiu-se inteiramente em Desterro.

Está explicado, então.

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Conde D'Eu Desterro Duque de Caxias Exército Brasileiro Guerra do Paraguai Rua Marechal Guilherme São José 

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