
Sonhos sobem escadas. Vacas param na curva (Imagem gerada pelo assistente IAgo Copilot/Edição Gemini/Prompt JCarlos)
Cristiano viu a primeira galinha ao vivo aos 14 anos. Estava no carro do pai, quando uma dessas aves atravessou a rua correndo desajeitada. Olhou para trás para confirmar: era mesmo uma galinha.
A família morava num apartamento no quarto e último andar de um prédio residencial. Cristiano herdou o imóvel quando os pais morreram num acidente. Continuou ali depois de casado e com a chegada da primeira filha. Lembrando da galinha, não quis que a menina fosse como ele — um “urbícola”, sem noção da natureza.
Pesquisou na internet e escolheu uma pousada onde se podia conviver com animais, visitar hortas e pomares, sentir por um fim de semana o que era a vida rural: sem buzinas, sem relógio, sem trânsito. Voltaram no domingo à noite picados por maruins, borrachudos e carrapatos, mas felizes com a “descoberta” de uma vida diferente.
A partir do passeio, comprar uma vaca virou obsessão. Falava com a esposa — que não gostou da ideia —, com a filha — que adorou e já escolheu o nome: Margarida — e com os amigos, que tentavam dissuadi-lo. Mas Cristiano persistiu.
Aprendeu “tudo” sobre manejo em vídeos e revistas: o que a vaca come, o que bebe, até que hormônio aplicar para produzir leite sem parir. Sem contar nada a ninguém, resolveu surpreender as “meninas”. Encomendou uma vaca jovem na pousada e pagou frete para entrega às três da manhã, em frente ao prédio central onde moravam.
Na hora marcada, viu o caminhão ¾ virar a esquina. Desceu correndo. Os homens desembarcaram a vaca, receberam gorjeta e foram embora imaginando o que aquele sujeito faria com um bovino ali, sem uma árvore sequer.
Cristiano fez carinho desajeitado na cabeça da Margarida e começou a puxá-la para dentro do prédio. O piso encerado dificultava, mas com esforço chegaram ao terceiro andar. Na última curva, antes do quarto andar, a vaca empacou. Firmou as patas e não se movia.
Cristiano, atrás dela, empurrava com os ombros. Nada. O tempo passava, o desespero aumentava. Não podia subir, nem descer. Logo os primeiros moradores sairiam para correr ou ir à academia.
Ouviu uma porta abrir. Passos. Um grito. A porta batendo de novo. E então a frase que só conhecia dos filmes:
— Levante as mãos e se vire devagar…
Dois policiais militares, armas em punho, olhavam sem entender a cena. Atrás deles, o síndico e vizinhos de pijama acompanhavam o espetáculo.
Cristiano acabou se mudando do prédio por causa da gozação. Nunca mais falou em criar qualquer animal. Nem passarinho. Ficou traumatizado.
[Crônica CCVII/2026]
