
Ele me espreita do armarinho do banheiro (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Ninguém acredita, mas ele existe — e as cicatrizes no meu peito são a prova.
Não é alucinação, nem visagem, nem invenção da minha cabeça. Veja esta marca: foi do ferimento que infeccionou. É mais larga que as outras, demorou a cicatrizar. A garra da criatura trazia uma sujeira desconhecida, que inflamou e deixou uma ferida tão feia que eu não podia vestir uma camisa fechada sem sentir dor.
E como eu digo: não posso dormir. Basta fechar os olhos e ele sai do espelho do armário do banheiro — aquele armarinho de plástico na parede. O dragão vermelho espreita do espelho e, quando me vê sonolento, voa sobre mim.
O peso dele esmagando minhas pernas me prendendo ao colchão com o seu peso. Acordo assustado e só tenho tempo de levantar os braços para afastar as garras que buscam meu pescoço. A luta é feroz: da cintura para baixo estou imobilizado, e seguro suas mãos ásperas e pegajosas. Uma pele rugosa, viscosa — não sei se é mesmo um dragão ou outra coisa.
Há noites em que minhas forças desaparecem. O hálito quente e fétido me sufoca, os dentes afiados como os de um tubarão tentam arrancar meu nariz. No desespero, uso o que resta de energia para empurrá-lo.
As batalhas duram muito tempo, não sei dizer quanto. Só cessam quando consigo afastá-lo e me levanto da cama. Ele não quer que eu durma. Então vou para a cozinha, bebo água gelada, sento na sala, ligo a televisão e deixo as imagens correrem, e fico olhando para a tela sem ver nada — só esperando o próximo ataque.
Já tentei fugir. Fui para outra cidade, me hospedei em um hotel só para dormir. Mas ele parece ter instalado um chip chinês em mim, um localizador, e me encontra onde eu esteja. Se levo alguém para casa, ele espera a pessoa dormir e vem sorrateiro me atormentar. Eu é que não posso descansar.
Não aguento mais essa tortura. Preciso dormir, preciso de paz.
Se não houver remédio que me livre dele, ao menos me dê um espelho sem armarinho — quem sabe assim o dragão não encontre onde se esconder.
[Crônica CCVIII/2026]
