01 de setembro de 2026

Duas missas, dois mundos

Por José Carlos Sá

O ritual é o mesmo, mas quanta diferença (Imagens criadas pelo assistente IAgo Copilot/Fotos JCarlos)

Uma das minhas características é a observação. Comecei a treinar a “ser observador” quando escoteiro, após ler Kim, de Rudyard Kipling. O livro mostra como um garoto órfão, de 13 anos, que vive de esmolas na Índia, acaba recrutado e treinado pelo serviço secreto britânico, que colonizou o país na época.

Esse atributo foi muito útil profissionalmente, quando trabalhei como repórter de tevê e jornal, saindo às ruas em busca de matérias — muitas vezes sem pauta — e voltando com histórias. Também é útil na minha auto-atribuição de escrever crônicas quase diariamente.

Foi esse espírito observador que me fez, involuntariamente, comparar duas cerimônias religiosas: a missa de sábado à noite e a de domingo de manhã. Apesar de seguirem o mesmo roteiro litúrgico do “22º domingo do tempo comum”, tudo estava diferente.

Na Comunidade Senhor Bom Jesus, aqui do bairro, somos poucos servidores, mas há leitores, que também são responsáveis pela coleta dos óbulos; o encarregado de cantar o salmo; o comentarista, que lê as intenções e avisos; além dos ministros da Eucaristia e uma falange de coroinhas, que dá um ar juvenil às missas mais solenes.

Já na centenária igreja da Irmandade do Nosso Senhor dos Passos, a estrutura era mais enxuta: os leitores, uma pessoa para intenções e orações, e uma única ministra da Eucaristia que fazia toda a assessoria ao padre — das galhetas ao sininho da consagração.

O perfil dos fiéis também contrastava. No sábado, muitos jovens, casais com filhos pequenos e poucos idosos. No domingo, quase todos acima dos 50 anos. O padre, nesse caso, fazia parte do grupo dos “menores de 50″, que era minoria naquela celebração.

O rito é o mesmo, mas a missa nunca é igual. Cada comunidade imprime sua marca, seja na vitalidade dos coroinhas ou na serenidade dos fiéis mais velhos. E é nesse contraste que a liturgia se torna viva, como um retrato da própria vida — ora juvenil, ora madura, sempre diversa.

[Crônica CCIV/2026]