20 de agosto de 2026

Cartas invertidas – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

O bem e o mal na batalha eterna por almas (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)

Quando comecei a ler Cartas de um diabo a seu aprendiz (Editora WMF Martins Fontes, São Paulo, 2009), do escritor e professor C. S. Lewis, já tinha tomado a resolução de não perder tempo com livros que não me agradassem — mesmo sendo indicação de um amigo, como era o caso.

As primeiras páginas me provocaram repulsa: instruções de um membro do alto escalão das legiões do mal a um jovem aprendiz na arte de arregimentar almas para o inferno. Por princípio, não leio, compro, assisto ou comento nada ligado aos domínios do capiroto. E era exatamente o que me parecia.

A obra e o autor (Fotos divulgação)

Marquei o trecho em que parei com um lápis, coloquei o marcador e fui pesquisar sobre o autor, de quem só tinha como referência as Crônicas de Nárnia, que vi em filme na televisão há muito tempo. Clive Staples Lewis, que assinava C. S. Lewis, nasceu em 1898 e morreu em 1963. Foi ateu por 31 anos, até se converter à Igreja Anglicana.

Voltei ao livro e percebi que deveria ler as cartas de forma invertida. Os conselhos que o coisa-ruim dava ao seu estagiário eu passei a entender ao contrário. Se eles — o chefe e o aprendiz — queriam que determinado humano fosse capturado para as facções do inferno, então as boas ações eram justamente o caminho oposto, e deveriam ser praticadas.

Em uma das cartas, por exemplo, o maligno orienta o novato a inspirar sua vítima a implicar com a própria mãe por qualquer motivo, detalhando como a implicância mútua deve funcionar.

Copiei um trecho para mostrar o grau de sutileza com que o espírito das trevas age:

“Em meios civilizados, o ódio na vida doméstica costuma se expressar quando se dizem coisas que podem parecer bastante inofensivas quando escritas (as palavras não são ofensivas), mas que, ditas em determinado tom de voz ou em determinado momento, são como um soco no rosto.”

Quando o paciente — futura alma perdida — passa a frequentar uma igreja, o maligno sugere que ele perceba como muitos fiéis apenas assistem às missas para encontrar defeitos nos outros, praticando um cristianismo de aparência e dedicando-se à maledicência com “boas intenções”.

Ao final da obra, o bem vence o mal: a alma desejada escapa das armadilhas e opta por uma vida dedicada à família e à religião.

É um livro interessante, sobretudo por mostrar que, por trás de boas intenções, podem se esconder propósitos inconfessáveis. Agradeço ao amigo Márcio Passarella pela indicação.

[Resenha XXI/2026]

Tags

C. S. Lewis Crônicas de Nárnia diabo Igreja Anglicana Márcio Passarella 

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