Eu não sei se deveria, mas começo a ficar preocupado com a esperteza – cada vez maior – da IA, a Inteligência Artificial, nossa de cada dia. Ela aprende rápido a conviver e interagir conosco, humanos preguiçosos ou incapazes, que vamos delegando a ela as tarefas que não queremos cumprir.
Os escritores e roteiristas de ficção científica do passado já previam que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde – para o bem e para o mal. Li muitos contos e assisti a filmes em que a IA toma conta de tudo e, quando percebemos, ela é a toda-poderosa, governando de fato e de direito.
Hoje uso a IA como assistente para revisar os textos que produzo – não só crônicas e contos, mas também atas e ofícios. São as IAs que me ajudam a dar forma às ideias para as ilustrações.
Reconheço que algumas ideias são difíceis até de descrever. Ficamos tentando chegar a um acordo, mas quando não é possível, recorro às ferramentas antigas – Paint e PowerPoint – num processo de recorta, cola e retoca que ainda engana os olhos menos atentos.
Outro dia testemunhei uma resposta delicada, mas firme, da assistente Alexa a um usuário que se dirigiu a ela com palavras impróprias:
– Putaquipariu, Alexa, para com isso!
– A sua maneira de se dirigir a mim está sendo inadequada. Não vou comentar.
Depois da surpresa, a gargalhada foi geral — menos do autor do xingamento, que ficou sem graça.
A Marcela tem usado bastante os assistentes virtuais para simular provas de concursos públicos. A IA com quem ela interage propõe questões baseadas nos editais e ainda avalia em quais disciplinas ela deve se dedicar mais para melhorar o desempenho nos concursos reais.
Querendo ouvir determinada música, Marcela disse à IA do celular um verso, esperando que a canção fosse executada:
– Olha a manhã que brilha na janela…
A resposta foi, ao mesmo tempo, decepcionante e hilária:
– Eu sou uma inteligência artificial e não tenho como olhar pela sua janela!
É como diz o outro: é pra acabar!
[Crônica XCVII/2026]

