Ontem concluí a leitura do último livro que, acredito, fui até o fim sem estar gostando do enredo nem da forma como o autor conduziu o assunto. Tratava-se de um registro biográfico de um ex-governador de Santa Catarina, escrito pela filha do homenageado, em que se enaltecem — claro — os feitos do político, os eventos que promoveu e até como estavam vestidas as “gentis senhoritas” que compareciam às festas palacianas.
Até bem pouco tempo eu me masoqueava lendo um livro até o fim, mesmo quando já não suportava a história. Prefiro dizer “um livro que me desagradava”, para ser mais fiel ao meu modo de ver. Por respeito ao autor — ou a quem me havia presenteado — eu me obrigava a chegar à última página, ainda que detestando cada linha.
Os poucos livros que abandonei antes do final pesaram como pecados capitais. Um sacrilégio. O remorso e a culpa me perseguiam, enquanto eu buscava justificativas para o meu ato covarde.
Ao ler o artigo “Até onde você vai com um romance?”, da jornalista e pedagoga Myrian Clark, no Canal Meio — recomendado pela Marcela — percebi que não sou o único a sofrer ao largar um livro sem concluí-lo. Myrian recorreu a especialistas em literatura, professores e autores, para legitimar a desistência.
Descobri também um código dos direitos dos leitores, que eu desconhecia. Entre eles: “o direito de não ler”, “o direito de não terminar um livro”, “o direito de reler” e até “o direito de calar” — este último, exatamente o que faço quando evito resenhar uma obra que me desagradou.
Pensando assim, estou respaldado e justificado. Mas nem por isso o peso da culpa diminui. Resolvi, então, mudar de estratégia: antes de começar um livro, vou buscar informações sobre a obra ou sobre o autor. Invertendo o hábito que tive até agora de só investigar depois de ler — e me decepcionar.
Vamos ver se vai dar certo.
[Crônica XCV/2026]
