
“Há males que vêm para o bem… mas a maioria vêm para o mal mesmo” (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt e edição JCarlos)
Marcílio falava quase todos os dias com Celeste que Rafael — o filho deles, de 19 anos — não poderia continuar na vida de “nem-nem”: sem estudar, sem trabalhar, acordando na hora que quisesse, comendo quando bem entendesse e se comportando como um hóspede na casa dos pais.
— Não lava nem a colherinha que mistura o açúcar no café — reclamava o pai, sempre.
— Calma, Marcílio, o menino vai tomar jeito…
— Não sei quando. Acho que vou morrer sem ver essa mudança.
Os dias passaram e a única alteração no comportamento de Rafael foi ficar mais fora de casa do que trancado no quarto. Os pais viram isso como sinal positivo. A mãe, otimista, sugeriu que o filho estava procurando emprego e, por isso, ficava mais tempo na rua.
Foi pela vizinha que Celeste soube: Rafael estava namorando Laurinha, filha do síndico, e “ficam se pegando na escada”, acrescentou a informante, sem ser perguntada. Celeste guardou a notícia como mais um bom sinal, apesar do tom maldoso.
No domingo, fim de tarde, enquanto o casal assistia televisão, Laurinha entrou primeiro no apartamento, deu boa tarde sem se deter e foi direto para o quarto de Rafael. Logo atrás vinha o rapaz, puxando uma mala grande, pesada mesmo com rodinhas.
Celeste e Marcílio olharam para a “nora”, para o filho, para a mala e um para o outro, sem entender nada. O pai fez menção de se levantar para pedir explicações, mas a mulher gesticulou:
— Deixa, depois eu vejo o que é.
Só na segunda-feira souberam: Rafael havia chamado Laurinha para morar com ele em casa. O detalhe que não contou aos pais era que ela já estava grávida.
[Crônica XCIV/2026]
