
Como dar certo, se no dia do casamento à esqueceram em casa? (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
O casamento era, desde a infância, o maior sonho da vida de Roberta. Não por sugestão ou incentivo dos pais ou dos irmãos mais velhos, mas porque ela própria se convencera de que aquele seria o melhor caminho para si — mesmo testemunhando a desarmonia que reinava em casa. O pai, sempre bêbado, batia na mãe; os irmãos, já casados, viviam às turras com esposas e maridos. Não havia, ao alcance de sua visão, um casal que vivesse em harmonia.
Com ela seria diferente, pensava.
Na pequena cidade, os pretendentes não eram muitos. Por isso, Roberta escolheu com critério o futuro esposo. O eleito foi Caetano, conhecido como “Candoca da Dica”: rapaz trabalhador, bom dançarino e cheio de planos para o futuro — sair da cidade, morar na capital e prosperar. Talvez tenham sido esses sonhos que conquistaram Roberta.
O tempo entre o namoro e o pedido de casamento foi curto: apenas o necessário para alugar e mobiliar a casa onde morariam, “correr os papéis” no cartório e encontrar uma data na agenda do padre que celebraria a união.
No dia marcado, após o corre-corre em casa, todos se dirigiram à igreja. No altar, nervoso, ao lado da mãe, Candoca suava em bicas. Os minutos passavam e nada da noiva — a personagem principal daquele evento.
Os dez minutos regulamentares de atraso já haviam se esgotado. O padre olhava para o noivo e apontava para o relógio. Na igreja, o burburinho crescia; os pescoços já doíam de tanto se voltarem para trás.
Candoca, impaciente, foi até o sogro, que aguardava na porta para conduzir a filha, e perguntou quem ficara encarregado de trazer Roberta. Ninguém soube responder. Logo perceberam que não haviam combinado quem levaria a noiva até a igreja.
Aproveitando o atraso, irmãos, cunhados e dois padrinhos escaparam para a Venda do Terto, em busca de “umazinha”. O noivo, desesperado, pegou uma moto para buscar a futura esposa, quebrando a tradição de que o noivo só pode ver a noiva diante do altar — para não dar azar.
Chegou esbaforido à casa de Roberta, já chamando por ela desde a porta. Encontrou-a na cozinha, em cena deplorável: chorava encostada à mesa, as lágrimas borrando a maquiagem que escorria pelo rosto.
O véu e o buquê estavam jogados no chão. O vestido, levantado até o joelho, revelava um pé calçado e outro descalço. À frente dela, uma garrafa de cachaça aberta e um copo pela metade.
— Roberta, o que aconteceu, querida? — perguntou Candoca, parado à porta, sem acreditar no que via.
Ela o olhou em silêncio. Virou o resto da bebida de uma vez, levantou-se e saiu pela porta da cozinha. Nunca mais foi vista.
[Crônica XCII/2026]
