
O pequeno agricultor prejudicado mais uma vez? (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Montagem JCarlos)
O ano pode ter sido 1986 ou 87, pois eu já morava em Porto Velho. A Assembleia Legislativa de Rondônia promoveu uma sessão especial com o arqueólogo Eurico Miller, que palestrava sobre os sítios arqueológicos descobertos durante a construção da Usina Hidrelétrica de Samuel, no município de Candeias do Jamari, a partir de 1982.
Miller falava dos vestígios de animais pré-históricos e povos originários que habitavam a região da antiga cachoeira de São Pedro, estimando evidências de ocupação com mais de dois mil anos.
Ao final da palestra, abriram espaço para perguntas. Alguém quis saber como os arqueólogos determinavam a idade dos vestígios.
O palestrante explicou que usavam vários métodos, entre eles o Carbono 14:
— Em campo, usamos o Carbono 14, que tem eficiência comprovada…
Foi então que o deputado Zuca Marcolino, autoproclamado representante do homem do campo, pediu a palavra e questionou:
— Se esse tal Carbono 14 é tão bom assim no campo, por que o agricultor familiar não recebe essa informação para melhorar a produtividade da lavoura dele?
Percebendo o mal-entendido, Eurico Miller esclareceu que o Carbono 14 é radioativo, não poderia ser usado indiscriminadamente e, além disso, não tinha efeito algum na agricultura.
Irritado, o deputado, que aguardava junto ao microfone de apartes, sentenciou:
— Mais uma vez o pequeno produtor é prejudicado pelo desprezo desses que nos governam! Eles têm comida na mesa, mas não sabem de onde vem…
E saiu resmungando.
Após um instante de espanto, ouviram-se risadas contidas e o evento prosseguiu normalmente.
[Crônica XC/2026 — diálogos reconstruídos de memória]
