
Fumar é o menor dos pecados (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot, inspirado em fotograma de cena com ator Vondie Curtis-Hall/Prompt JCarlos)
Antes de completar 18 anos, eu olhava para os cartazes de filmes nas portas dos cinemas de Belo Horizonte e constatava que justamente os filmes que me interessavam eram proibidos para menores.
Naquela época — não sei agora — havia certo rigor na observação das restrições de acesso às salas de espetáculo. Se você conseguisse burlar o porteiro, ainda corria o risco de ser flagrado por uma equipe do Juizado de Menores.
Além do vexame de ser conduzido para fora da sala sob vaias, havia o constrangimento de ser levado perante os pais, que recebiam um “carão” das otoridades.
O primeiro filme que assisti como “maior de idade” foi Ensina-me a viver, com Ruth Gordon e Bud Cort (falecido em fevereiro deste ano), mais tarde exibido na Sessão da Tarde da TV Globo. O porteiro do Cine Odeon, onde o filme estava em cartaz, desconfiou da minha cara lisa e pediu a carteira de identidade. Conferiu a data de nascimento e, para minha surpresa, me deu parabéns: era o dia do meu aniversário de 18 anos.
O filme não tinha nada de mais para justificar a restrição de idade, mas estávamos em plena ditadura militar, no início do governo Geisel.
Na semana passada, dois fatos me fizeram lembrar desse episódio. No programa radiofônico A Voz do Brasil, anunciaram mudanças no sistema de classificação indicativa para filmes e espetáculos. Não sei exatamente o que vai alterar, pois ouvi a notícia por alto e só registrei que algo mudaria.
O segundo fato ocorreu enquanto assistia à série Justified – Cidade Primitiva. A Marcela chamou minha atenção para o aviso que aparecia no alto da tela, no início de cada episódio: “Contém imagens de tabaco”. Logo depois, começava o desfile de tiros, assassinatos, traições, sexo, drogas, álcool, torturas, atentados a bomba, racismo, entre otras cositas más.
Fico pensando na inutilidade desse alerta, que no caso dos streamings, são eles mesmo que fazem a autorregulação, que o Governo pode alterar ou não. O grau de amadurecimento dos jovens na atualidade torna qualquer regulação oficial ou não, completamente inútil.
Como diz um amigo meu: “a vida é mais cruel que a lei”.
[Crônica XCVII/2026]
