
As mulheres são incentivadas a se candidatar para os partidos cumprirem a cota obrigatória (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)
Ouvi na Rádio Senado uma campanha para incentivar as candidaturas políticas de mulheres e para que elas não aceitem ser “laranjas” dos partidos, que precisam cumprir a cota mínima de 30% de candidaturas por gênero.
Soube, no passado, de dirigentes partidários que buscavam desesperadamente mulheres para atender à exigência legal e preencher as vagas destinadas ao gênero feminino, apenas para viabilizar as campanhas dos candidatos homens. Parece mentira, mas não é.
As vítimas — digo, aquelas que eram convencidas — emprestavam seus nomes, documentos e até a fisionomia para as fotos e o preenchimento dos formulários do Tribunal Regional Eleitoral. Mandavam imprimir uma quantidade mínima de santinhos, caso fosse necessário comprovar campanha e despesas com o Fundo Eleitoral. Depois disso, só eram lembradas novamente na prestação de contas. A legislação atual dificulta bastante essa malandragem.
As mulheres representam mais de 50% do eleitorado brasileiro — exatos 52,8% dos votantes — e, historicamente, são poucas as que se dispõem a se candidatar de verdade, enfrentar o sistema político machista e exercer seus cargos.
Enquanto ouvia o anúncio a que me referi no início desta crônica, lembrei-me de um dos causos contados pelo poeta paraibano Jessier Quirino, “O matuto e o coroné”. É a história de Bil das Quengas, chamado pelo patrão e informado de que seria candidato — e mais que isso, “candidato laranja”.
Bil, surpreso com o convite-ordem, pergunta o que é um “laranja” e recebe a explicação do coronel:
— Laranja é o seguinte. Você é candidato e eu também sou, só que você perde e eu ganho.
— E o que eu vou fazer nessa campanha? — quis saber Bil.
— Você só precisa atacar meus adversários. Eu, que também sou candidato, não ataco ninguém, não me meto nas baixarias e me reelejo. Depois te dou proteção política.
Na história, Bil não aceita a missão, enumerando dezenas de razões para não se envolver em política, mesmo imaginando ter “sintoma prefeituroso, embocadura deputadal, cancha de governador e senador e sustança de presidente”.
Qualquer semelhança com a vida real é mais que mera coincidência.
[Crônica XCII/2026]
