28 de julho de 2026

Livro com direito a troca

Por José Carlos Sá

Aceitam-se trocas (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

Aprendi, observando, que dar livros de presente é um risco que se assume quando não se conhecem os gostos literários de quem vai receber. Antes de decidir presentear alguém com um livro, é preciso saber se essa pessoa gosta de ler e, se sim, que tipo de literatura aprecia.

Há quem goste de romances, outros preferem livros ilustrados, e há aqueles que avaliam a obra pela quantidade de páginas: se tiver mais de dez, nem chegam perto.

Muitos recebem o livro com um sorriso falso, fingindo ter gostado. Outros não disfarçam a decepção — seja por não apreciarem livros, seja por não se identificarem com o assunto. Nesse caso, não convém ao presenteador perguntar, tempos depois, se gostaram da leitura ou qual era o enredo. A decepção será descobrir que o volume continua intacto, ainda dentro do pacote.

Já contei aqui que, numa brincadeira de amigo secreto no Natal da firma, resolvi dar um livro de presente. Ao chegar à livraria, percebi que não sabia o gosto literário do meu “amigo X”. A vendedora tentou me convencer a comprar um dos títulos da moda, uma autoajuda qualquer. Mas tive a intuição de escolher um dos livros indicados pela revista Veja naquela semana. A vendedora sorriu e disse: “Se depois o seu amigo quiser trocar, é só trazer este canhoto aqui!”, entregando-me um vale-troca.

Meu amigo X gostou do livro e me agradeceu muito. Foi um risco que assumi e deu certo. Mas sei de muitos casos em que o presente foi parar no sebo, até com dedicatória.

Li, há muito tempo, que um escritor, ao garimpar obras raras em um sebo, encontrou um livro de sua autoria com dedicatória a um amigo. Primeiro ficou triste. Depois resolveu se vingar: comprou o livro e o enviou novamente ao mesmo amigo, por meio de um portador. Imagino o constrangimento.

Toda essa conversa foi motivada por um livro que a Marcela trouxe para eu consertar — a capa e algumas folhas estavam se soltando. Na folha de rosto havia uma dedicatória profética, que já antecipava o futuro daquele presente:

Albertina, para você com abraço da amiga Mônica. 11/08/1998

P.S. Se você não quiser ler, por qualquer razão que seja, não tem problema.”

[Crônica XC/2026]