24 de julho de 2026

Otto, o espanta-fregueses

Por José Carlos Sá

Otto, o indesejado de todos os bares da Vila Pouca (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

No tempo em que a exploração de madeiras nas terras vizinhas trazia muito movimento de pessoas, a Vila Pouca tinha cinco bares: o Bolicho do Nicola, o Bar do Neguinho, a Tenda do Alemão, o Bar e Restaurante da Tia Maria e a Venda do Terto.

A Venda do Terto era a mais simples e a única que sobreviveu à decadência do “ciclo da madeira”, que levou embora toda a efervescência do lugarejo — e muitos problemas também.

Um desses problemas tinha nome e apelido: Otto Quebra-Dentes. Descendente de alemães, morava na colônia a seis ou sete léguas dali. Trabalhava na serraria e, aos sábados, aparecia na vila em busca de diversão e confusão.

Era um homem alto, com um chapéu deformado pelo tempo e, na cintura, uma pistola antiga de um cano, que dizia ter sido usada na Guerra do Paraguai. Quando riam do seu “trabuco velho”, desafiava o gozador a servir de alvo para provar que a arma funcionava. Por via das dúvidas, ninguém aceitava a provocação.

Otto chegava sempre por volta das duas da tarde e começava a beber no bar mais próximo da entrada da vila. Ia direto ao balcão, batia o punho fechado na madeira e pedia uma schnaps, que o balconista entendia como cachaça. Só depois de virar o gole cumprimentava os presentes.

À noite, já estava alterado, bêbado. Sentava-se em uma mesa ou num canto do balcão e bebia sozinho. Se seus olhos cruzassem com outro olhar, chamava para a briga. Alguns aceitavam o desafio. O resultado era prejuízo certo para o dono do comércio: móveis quebrados, vasilhames de vidro destruídos e fregueses assustados.

Com o tempo, Otto tornou-se a pessoa mais indesejada de Vila Pouca. Bastava entrar em um bar para que os presentes pagassem a conta e fossem embora, frustrando o comerciante justamente no sábado, dia de pagamento, quando todos costumavam beber, comer tira-gostos e gastar mais. Com o alemão por perto, era prejuízo garantido.

Os cinco proprietários resolveram então se unir e boicotar Otto. Combinaram de não vender mais bebida para ele. Mesmo com medo da reação, colocaram o plano em prática. Vendo que não era mais bem-vindo, apesar da insistência, o baderneiro deixou de frequentar a Vila Pouca, parando de tomar seus tragos, ameaçar pessoas e brigar sem motivo.

Não deixou saudade quando desapareceu da vila.

[Crônica LXXXVIII/2026]

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Guerra do Paraguai Otto Quebra-Dentes Schnaps Venda do Terto Vila Pouca 

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