22 de julho de 2026

Picantes, mas impróprias

Por José Carlos Sá

As três irmãs picantes (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

Maria Caiena, Francisca Cambuci e Lorena de Jales eram três irmãs que nasceram numa horta caseira. As lembranças da infância vinham sempre acompanhadas de uma hortelã (palavra que parece existir só nos livros de histórias infantis) jogando água no berço delas e de focinhos de cachorros curiosos, fiscalizando o que havia sido plantado ali.

Cresceram cercadas pelas Cebolinhas — “umas magrelas metidas” — e pelos Pimentões — “bonitões, mas que não se misturavam”. Conversavam muito entre si e faziam planos para quando fossem adultas.

— O meu sonho — dizia Maria Caiena — é ser servida num prato de berinjela recheada e empanada, temperada comigo e com queijo parmesão…

— Ah, ainda serei prato principal — dizia Francisca Cambuci — refogada com carne moída, cebola, alho… Serei a atração da mesa!

— Não quero isso tudo — falava Lorena de Jales — fazer parte de um molho já está bom. Sou ardida demais… — e virava os olhos, tentando sensualizar.

As três sonhadoras foram crescendo, destacando-se no pequeno canteiro. Todos os dias se preparavam para ser colhidas e levadas dali, mas nada acontecia. A hortelã aparecia com uma tesoura preta e cortava apenas as cebolinhas magrelas, que iam embora sorrindo para as pimentinhas.

Os pimentões também foram colhidos e levados, sem sequer dar uma última olhada para as vizinhas. “Bobalhões”, pensaram despeitadas. E nada de serem apanhadas, lavadas e servidas…

Até que, numa manhã, a esperança voltou. Um velho apareceu e tirou fotos delas de todos os ângulos. As irmãs logo se animaram:

— Ele vai fazer um booking com nossas fotos e logo virão os chefs nos buscar!

Dois dias depois, o velho voltou com a hortelã. Pararam perto da horta e apontaram para elas. As pimentinhas, animadas, levantaram as folhas para ouvir melhor.

— Mandei as fotos das pimentas para minha irmã identificar que espécie são…

— E o que ela disse? Foi ela quem me presenteou com as sementes…

— Disse que não são comestíveis. Servem apenas para ornamentação!

Ao ouvir aquilo, foi como se tivessem sido regadas com água gelada.

— Vocês ouviram? Não servimos para ser comidas…

— E agora, e o meu sonho de ser prato principal?

— Deixem de ser pessimistas! Somos ornamentais. Vão nos colher, colocar numa bonita embalagem e dar de presente a amigos queridos. Seremos vistas e admiradas…

Sem alternativa, concordaram com a irmã otimista. E agora sonham em decorar um lugar e dar a ele um toque colorido.

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Essa crônica “afabulada” nasceu de um fato real. Num Natal passado, ganhei de amigo oculto uma garrafa de vidro muito bonita, cheia de pimentas coloridas. Poucos dias depois, resolvi estrear o presente: preparei uma omelete caprichada e peguei a pimenta para dar um toque especial. Antes de abrir a embalagem, li a etiqueta: “Impróprio para consumo”.

Acabou a graça.

[Crônica LXXXVI/2026]