Na noite de quinta-feira, 16 de julho, ao descer a escada de casa arrumando o cabelo, esbarrei em um dos quadros da parede. Ele caiu com grande estardalhaço: o barulho dos vidros quebrando e da moldura de alumínio quicando nos degraus ecoou até o chão da sala.
Marcela se assustou, pensando que eu tinha caído no banheiro, enquanto eu fiquei paralisado no alto da escada, apenas assistindo à Lei da Gravidade agir sem poder fazer nada.
Sem alternativa, recolhemos os cacos de vidro e os acondicionamos de forma a não machucar os coletores de lixo. Fui ao meu compromisso ainda “traumatizado” pelo ocorrido. Lembrei que muitos dizem que quando algo se quebra é um livramento, uma desgraça da qual escapamos. Pode ser.
Mais tarde, ao voltar para casa, Marcela comentou:
— Você soube que o Milton Nascimento foi internado?
— Não. O que houve?
— Parece que é pneumonia… Você derrubou o quadro aqui e ele [Milton] foi internado lá…
A partir daquele momento, incluí o cantor em minhas orações.
Passei a acompanhar Milton Nascimento apenas a partir de 1975, quando ganhei de presente o recém-lançado LP Minas, aquele da capa prateada e azul. Antes disso, sabia de sua existência pela música Travessia, apresentada no Festival Internacional da Canção de 1967, e por um cartaz anunciando o show “Milton Nascimento e o Som Imaginário”, no Teatro Marília, em Belo Horizonte, por onde eu passava diariamente de ônibus — mas sem fazer ideia de quem se tratava.
Depois do disco Minas, vieram muitos outros. No entanto, nunca tive a oportunidade de vê-lo ao vivo: quando eu estava em São Paulo, ele se apresentava em Brasília; quando eu estava em Brasília, Milton cantava em Minas; e quando eu ia a Belo Horizonte, ele estava no exterior.
Em novembro de 2022, fui a Minas visitar minha mãe e, no mesmo fim de semana, aconteceria o show A Última Sessão de Música, a despedida definitiva do cantor dos palcos. Comprei o ingresso e fui ao Mineirão. Cumpri minha proposta e assisti ao Milton Nascimento cantando, junto com milhares de pessoas, os sucessos que eu sabia de cor.
Dessa despedida trouxe um cartaz e a pulseira-ingresso, que mandei emoldurar em alumínio e vidro, entronizando-os no alto da escada de casa, onde permaneceram até quinta-feira passada.
Foi então que se desencadeou o “efeito borboleta” (o bater de asas de uma borboleta no Japão poderia provocar um terremoto no Texas): derrubei o quadro do Milton Nascimento em São José, e o cantor foi internado no Rio de Janeiro.
É por isso que estou preocupado.
[Crônica LXXXVI/2026]



