19 de julho de 2026

O guerrilheiro da palavra — A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

A história pouco contada de Horácio de Carvalho (Divulgação)

Há poucos dias, fiquei sabendo de um personagem importante da literatura catarinense — embora pouco conhecido — por meio de uma bisneta dele. O poeta, jornalista e educador viveu entre a antiga Desterro (atual Florianópolis) e o Rio de Janeiro. Trata-se de Horácio Serapião de Carvalho, nascido em 1872, em Santo Amaro do Cubatão (hoje Santo Amaro da Imperatriz), filho de um comerciante e político.

Participou do movimento que buscava atualizar o pensamento da Província de Santa Catarina no final do século XIX, quando ideias filosóficas, evolucionistas, abolicionistas e republicanas ainda eram praticamente desconhecidas por aqui.

Os amigos guerrilheiros. Da esquerda para a direita – Horácio de Carvalho, Virgílio Várzea e Cruz e Sousa – Rio de Janeiro – 1891 (Reprodução/Foto tradada com IA Picwish)

O literato Horácio de Carvalho, um dos fundadores da Sociedade Catarinense de Letras (precursora da Academia Catarinense de Letras) foi amigo dos poetas Cruz e Sousa e Virgílio Várzea. Os três lideraram um movimento “anti-romântico” que ficou conhecido como Guerrilha Literária, Ideia Nova ou Os Novos. Estudavam e discutiam política e literatura sob a ótica de Augusto Comte, Émile Zola, Pierre-Joseph Proudhon, Herbert Spencer e Charles Darwin.

É curioso ler, nos resgates históricos feitos pela escritora Maria José Carvalho de Souza, a reação dos conservadores desterrenses às ideias novas. Houve quem tentasse fazer o jovem Virgílio Várzea engolir, literalmente, as páginas de um jornal onde publicou versos satíricos sobre um rival.

Horácio de Carvalho teve como principal atividade profissional o magistério. Participou da Revolução Federalista, no posto de alferes. Também foi jornalista e funcionário público, lotado na Capitania dos Portos, além de ter atuado como secretário do Tribunal de Justiça.

No fim da vida, acometido por uma doença que o levou à depressão, isolou-se em um quarto fora de casa, onde passava o tempo lendo e desenhando nas paredes, até morrer em 1935, aos 63 anos.

Um detalhe interessante é como a biógrafa se aproximou da personagem. Maria José conta que ouvia histórias do pai sobre o bisavô “esquisitão”, que vivia isolado e falava com quase ninguém. Soube também que ele tinha “amigos da pesada”.

Foi somente depois de estudar o Movimento Simbolista e descobrir que Horácio havia sido amigo do poeta Cruz e Sousa que Maria José decidiu aprofundar suas pesquisas sobre ele. O ponto de partida foram entrevistas com as tias de seu pai, em busca de memórias familiares. Em seguida, mergulhou nos arquivos de jornais da época, reunindo textos publicados e manuscritos, que mais tarde organizou e compartilhou em seu livro.

O resultado é um interessante recorte de uma época da cidade de Desterro, que, apesar de ser capital de província, ainda abrigava intelectuais com ideias atrasadas em relação aos movimentos filosóficos e políticos discutidos no Rio de Janeiro e na Europa, então o centro do mundo intelectual.

Serviço

Livro: Horácio de Carvalho — O amigo de Cruz e Sousa

Autora: Maria José Carvalho de Souza

Edição: Dois Por Quatro Editora (Florianópolis, 2020)

Preço: R$ 39,90, no site da editora

[Resenha XVIII/2026]