Vila Pouca, apesar do tamanho diminuto, também tinha o seu bêbado, como em tantos lugarejos. Zé Bafo vivia embriagado, sustentando o vício graças às doações de outros frequentadores da venda do Terto, onde dormia no puxado dos fundos, sobre engradados de garrafas vazias.
Fora uma vez ou outra, quando estava “atacado”, Zé Bafo não incomodava ninguém. Sentava-se numa calçada e ficava olhando para o nada ou comentando consigo mesmo sobre quem passava. Respondia a algum raro cumprimento e não dava atenção aos gracejos. Quando sentia falta do álcool, caminhava até a venda e olhava para todos com olhos pidões, até que alguém se compadecesse e lhe oferecesse uma dose.
Em dias de culto na igreja evangélica, Zé Bafo dava atenção especial às roupas do pastor Nicodemus. Apesar de pobre, o pastor caprichava na indumentária, embora fizesse combinações de cores que chamavam atenção até do bêbado.
Uma camisa do missionário, em particular, atraía o olhar de Zé. Era uma camisa marrom com finas listras amarelas verticais, usada com uma gravata verde. Zé Bafo olhava para a camisa e os olhos até brilhavam. Ele mesmo não sabia explicar a razão daquela fixação.
Um dia, o pastor Nicodemus morreu, e a viúva resolveu doar as roupas dele. Alguém sugeriu que ela destinasse a camisa marrom listrada de amarelo ao bêbado. A mulher, a princípio, resistiu — como dar a camisa que um homem sem mácula usava a um degenerado, uma alma perdida? Mas acabou cedendo e doou a peça ambicionada ao ébrio.
Zé Bafo recebeu a camisa sem acreditar no presente. Olhou a roupa por todos os ângulos, como se procurasse algo escondido, depois a dobrou cuidadosamente e levou ao bar, pedindo ao dono que a guardasse para ele.
— Você não vai usar a camisa do pastor? Falava tanto dela… — perguntaram os curiosos.
— Essa camisa é especial. Vou guardar para uma ocasião importante.
— Que ocasião importante? — provocou Terto. — Só se for no dia do seu enterro…
Parece que foi praga. Zé Bafo morreu três dias depois e foi levado ao cemitério vestindo a camisa do pastor — que ficou grande nele, e tiveram de dar uns pontos nas mangas e nas costas para o defunto parecer bem-apessoado. Pelo menos na roupa.
[Crônica LXXXIII/2026]

