07 de julho de 2026

O arrepiador de gatos

Por José Carlos Sá

Por um motivo desconhecido os gatos se arrepiam quando me veem (Imagem gerada pelo assistente IAgo/Prompt JCarlos)

Depois de andar por toda a cidade em busca de um lugar para morar, cujo aluguel coubesse no meu limitado orçamento, formado apenas pela pensão que recebo do INSS,  encontrei um quarto em uma casa que aluga cômodos.

A casa é antiga, mas os quartos são grandes e de teto alto, o que ajuda na ventilação durante o verão. Ventilação que você escolhe: um ventilador ou a janela aberta. Se optar pela janela aberta, prepare-se para a doação compulsória de sangue aos mosquitos. A proprietária não permite a instalação de aparelhos de ar condicionado, pois a rede elétrica não comporta.

Tentei me acostumar com a janela aberta nas noites de calor, mas na casa vizinha – não sei explicar a razão – existem uns vinte gatos de todas as cores e tamanhos, que infernizam a vizinhança com miados, brigas e acasalamentos.

O território deles não se limita ao quintal da casa: espalha-se por toda a imediação. São vistos dormindo nos telhados, mendigando comida nas portas das cozinhas ou roubando alimentos.

Meu vizinho de quarto quase morreu de susto quando dois gatos, brigando sobre o forro da casa, caíram em cima dele enquanto dormia bêbado. Ele me contou que o efeito do álcool passou na hora: acordou no meio do barulho de madeira quebrando, dos gatos gritando e do peso dos bichos sobre o corpo. Depois levantou a camisa e mostrou a pele toda arranhada. Sobrou unhada para ele também. Sugeri que fosse ao posto de saúde tomar vacina antirrábica.

Talvez por isso minha aversão aos felinos só tenha aumentado. Não faço carinho nem deixo que se aproximem de mim. Se estou comendo alguma coisa e um deles aparece com aquele miado de pedinte, espanto com um grito.

Na semana passada comecei a notar um comportamento diferente nos gatos da vizinhança em relação a mim. Quando venho pela calçada em direção à casa, os felinos que antes me ignoravam — ou, no máximo, olhavam na minha direção — agora fogem.

Na primeira vez, pensei que se assustavam com um cachorro da rua, concorrente deles na luta pela sobrevivência. Depois percebi que era a minha presença que os espantava.

Para testar essa desconfiança, aproximei-me sorrateiro de um gato que dormia sobre o murinho da casa. Quando cheguei perto, o bicho abriu os olhos, olhou para mim, se arrepiou inteiro e, num salto, disparou.

Nas vezes seguintes, a cena se repetiu: bastava me verem para que os pelos do lombo se eriçassem, seguidos de um pulo e corrida na direção contrária.

Meus vizinhos, a quem contei o fenômeno, pedem a fórmula que uso para espantar os bichanos, pois ninguém aguenta mais a gataiada.

Agora sou eu quem não dorme, pensando no que tenho que faz os gatos se arrepiarem de medo…

[Crônica CXXXVII/2026]

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Gatos INSS Leseira 

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