04 de julho de 2026

Leitor sem masoquismo — A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

Capa da edição dos contos A canção das gaivotas, de Virgílio Várzea (Reprodução)

Se dependesse apenas da apresentação feita pelo professor Lauro Junkes, eu não teria lido A canção das gaivotas, de Virgílio Várzea (Editora Lunardelli, Florianópolis, 1985).

Em quarenta páginas, o organizador desta edição de contos faz uma análise tão complicada e erudita dos textos que se seguem que fiquei em dúvida se conseguiria ler e entender a obra de Virgílio Várzea — tudo para matar uma curiosidade sobre aquele que é considerado um dos grandes nomes da literatura catarinense.

Deixei de ser um “masoquista literário”, aquele que não desiste e lê até o fim um livro de que não está gostando. Fiz isso centenas de vezes, mas agora não tenho mais tempo a desperdiçar.

Ainda bem que não levei em conta as observações do professor Junkes sobre os estilos literários que Várzea experimentou — ora simbolista, ora realista, ora parnasiano — e li sem compromisso, apenas absorvendo o clima que o escritor descrevia em seus contos.

Ambientadas na Ilha de Santa Catarina e em alguns recantos do continente, como nos atuais municípios de Governador Celso Ramos e Tijucas, em fins do século XIX, as histórias contadas por Virgílio Várzea têm o sabor da inocência e da pureza dos pescadores e agricultores, descendentes de portugueses do continente ou do Arquipélago dos Açores e da Ilha da Madeira, que viviam em recantos mais ou menos isolados, numa época em que tudo era mais difícil.

Virgílio Várzea, escritor, jornalista e político, um dos expoentes da literatura catarinense (Reprodução Acervo ACL)

O vocabulário de Virgílio, especialmente nas descrições de paisagens e pessoas, é rebuscado e cheio de hipérboles — a natureza parece, até no papel, radiante de tanta beleza.

Há histórias de namoros tentados, de amores perdidos, de homens valentões e mulheres sofredoras. Muitas delas estão ligadas ao mar. Aliás, o escritor sempre dá um jeito de inserir algo marítimo mesmo ao descrever uma paisagem terrestre, como neste trecho sobre um cafezal:

“Em torno, fora, na mornidão plena de ar fulguroso, chia um zumbir sonolento de vareja e besouro, como um longínquo esfolar de vagas na calmaria de um golfo.”

O mar de Virgílio, entre a procela e a calmaria (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)

O mar real aparece calmo e translúcido, mas também cruel — em forma de tempestade ou engolindo pessoas queridas. As descrições de borrascas são impressionantes e realistas. Segundo o professor Lauro Junkes, o autor viveu desde criança no barco do pai, acompanhando travessias marítimas de cabotagem e, já adulto, conheceu o mundo todo em viagens por todos os continentes.

Além de recomendar a leitura — pulando a apresentação — destaco um trecho do conto A última fornada, que me impressionou pela descrição. É a história do encerramento de um mutirão para o fabrico de farinha de mandioca em um engenho, onde se reúnem jovens de várias famílias da redondeza para a “farinhada”.

Entre os participantes, uma jovem, Mariquinhas Rosas, ainda trajando luto pela morte de um tio. O outro personagem é Manuel Rita. Eles se flertavam e, no último dia, ele a encontra sozinha num canto do engenho. Depois de uma resistência fingida, a deita sobre a farinha que ainda estava por ser ensacada. Logo sentem falta dos dois e os chamam. Virgílio descreve a decepção da moça:

“E assim, como quem vai para um estranho noivado, subiu para o carro, contrariada, abatida, sob as suas vestes lutosas e nupciais.”

Sensacional!

Serviço

  • O quê: A canção das gaivotas
  • Autor: Virgílio Várzea / Organização Lauro Junkes
  • Editora: Editora Lunardelli
  • Onde encontrar: Se tiver sorte, em um sebo

[Resenha XVI/2026]

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