
O pão queimou, mas a curiosidade ficou no ponto (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Quando criança, uma das minhas travessuras favoritas era espetar um pedaço de pão num garfo e levá-lo à chama do fogão. Gostava do pão tostado, comido ainda quente, acompanhado de manteiga ou margarina.
Às vezes errava o “ponto” e o pão queimava. Então raspava a parte preta com uma faca e comia o restante, mesmo com o gosto amargo. Os pais não aprovavam, diziam que fazia mal — mas naquela época a gente queria era confrontar o “sistema”.
O pão chamuscado não era exatamente uma iguaria, mas uma forma diferente de saborear o pão‑nosso‑de‑cada‑dia e escapar da rotina. Agora, porém, a Anvisa concluiu que nessas guloseimas se esconde um acelerador do câncer: a tal da acrilamida.
Quando a Marcela veio me contar isso (ela também gostava de pão sapecado), não entendi direito.
— Você sabe o que é “acrilamida”?
Eu não ouvi bem e respondi o que achei que tinha entendido:
— Sei sim. Quando eu era criança e tinha dor de garganta, mãe dizia que minhas amígdalas estavam inflamadas…
A esposa não gostou da resposta.
— Zé Carlos, eu falei A‑CRI‑LA‑MI‑DA. Presta atenção, não é brincadeira…
— Não estou brincando. O que é isso?
Ela explicou: alimentos ricos em carboidratos — batatas, pães, biscoitos, macarrão, pizza — quando submetidos a altas temperaturas e ficam tostados (como meu pãozinho no fogo), podem desenvolver acrilamida, substância associada ao câncer.
E só agora a Anvisa avisa?
[Crônica CXXXII/2026]
