
Viking enfrenta dragão para salvar donzela (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Na minha infância eu ouvia muitas histórias: as de assombração, contadas por meu pai, e as “infantis”, lidas para nós por Teresa, a menina que cuidava da minha irmã Cida. Teresa também tinha um bom repertório de histórias que ouvira dos pais e recontava para meus irmãos e para mim.
Na maioria delas, o final era sempre trágico. Uma bruxa empurrada para dentro de um caldeirão fervente; um lobo descendo pela chaminé direto para um panelão de água fervente; ou uma mulher malvada colocada dentro de um barril cheio de pregos, empurrado morro abaixo.
Ninguém morria de velhice. E nós íamos dormir embalados por toda essa matança de personagens.
Revi essa sucessão de tragédias ao ler o livro Sagas Lendárias Islandesas – Narrativas medievais sobre o passado heroico escandinavo (Editora Ex Machina, Brasília, 2025). São histórias transmitidas oralmente e só compiladas em texto a partir do século IV d.C., já “contaminadas” pelo cristianismo, que então dominava os países nórdicos. O organizador e tradutor da obra, Théo de Borba Moosburger, explica isso na introdução de 26 páginas, que vem acompanhada de um Guia de Pronúncia para nomes como Sinfjötli ou o reino de HringstaƋir.
Há rainhas que matam os filhos para se vingar do rei, que por sua vez matou o sogro para ficar com a mulher; irmãs que matam irmãs porque uma foi para a cama com um homem antes da outra; além de mortes em guerras e brigas por motivos fúteis.
Na parte fantástica da obra, surgem gigantes malvados, bruxas e feiticeiros, anões capazes de forjar espadas mágicas e hipnotizar inimigos. Dragões também aparecem, mas são abatidos logo no primeiro confronto, sem render nem argumento para um roteiro de cinema.
O deus Odin (ÓƋinn) surge em várias lendas, ora ajudando heróis, ora acusado de engravidar princesas. É classificado como “deus pagão” e até como membro das legiões do capeta — adulterações que, segundo o organizador, refletem a pena dos monges cristãos que registraram as narrativas.
Gostei, em particular, da Saga de Egill Maneta e Ásmundr, o matador de berserkir. Egill perdeu a mão ao salvar uma gigante de uma tentativa de feminicídio. A gigante guardou a mão em uma caixa com “ervas da vida” e, anos depois, reimplantou o órgão no lugar original. Mas, mesmo com a mão de volta, Egill continuou a ser chamado de “maneta”.
Apesar da carnificina, das traições e dos exageros, me diverti lendo o livro. São menos de 400 páginas, mas repletas de notas explicativas e com letras miúdas — exigindo que eu lesse mais devagar, por causa da vista cansada.
Recomendo.
Serviço:
Livro: Sagas Lendárias Islandesas – Narrativas medievais sobre o passado heroico escandinavo
Organizador e tradutor: Théo de Borba Moosburger
Editora: Ex Machina
Preço: R$141,55 no site da editora
[Resenha XIV/2026]



