Fui saindo do torpor aos poucos. De olhos fechados, sentia a cabeça latejando, ouvindo um barulho forte e contínuo. Parecia que minha cama balançava muito, como se eu estivesse deitado no chão de um veículo em movimento.
Tentava lembrar de ontem ou hoje. Já era quase madrugada quando fomos para a cama, pois já não aguentávamos mais…
— Como é mesmo o seu nome? — falei em voz alta, tentando me virar para o lado da mulher que me acompanhava. Mas não consegui.
Abri os olhos e não vi nada. Estava escuro. Minhas mãos e pernas estavam amarradas, e eu estava na carroceria de algum veículo fechado.
Pensei que fosse a nóia, efeito da festinha. Mas logo concluí que havia sido sequestrado. E, de repente, todos os sintomas das drogas e do álcool desapareceram milagrosamente.
Comecei a me debater e a pedir socorro desesperadamente. Uma janelinha abriu na parede superior à minha cabeça e apareceram dois olhos. Ouvi uma voz dizer: “Ele acordou”. A janelinha fechou de novo.
No breve instante de iluminação, percebi que estava em um furgão com paredes acolchoadas. A certeza do sequestro se instalou.
Gritei por socorro até ficar rouco. Depois parei de me debater e fiquei esperando o que viria.
Muito tempo depois — não sei se dormi — a porta do veículo foi aberta. A maca onde eu estava deitado foi puxada para fora com um solavanco.
Tentei olhar em volta, mas só via as costas do homem que puxava a maca por um corredor comprido, quase todo às escuras.
Falei, gritei, que ninguém ia pagar resgate, que estavam perdendo tempo, que a polícia logo chegaria para me libertar e prender todos eles.
Só ouvi um “cala a boca” seco. Nada mais.
Enfim, a maca parou. Uma mulher, vestida de enfermeira, falou comigo com gentileza:
— Bem-vindo ao Hospital Psiquiátrico Doutor Cesare Lombroso. Sua família o internou para tratamento contra dependência química. Amanhã conversaremos sobre as regras da casa. Agora vou aplicar esta medicação para você relaxar. Durma bem.
— Meus parentes são uns grandezzzz…
[Crônica CXIX/2026]

