05 de junho de 2026

Por José Carlos Sá

Acampamento cigano na geral de Potecas (Arte sobre fotografia, pelo assistente IAgo/Foto JCarlos)

O motorista do Uber, do nada, perguntou-me se eu tinha visto o início de uma invasão em um terreno perto de onde havia embarcado. Respondi que não e estranhei o local apontado, pois trata-se de uma das ruas principais do bairro, aqui chamadas de “geral”.

O espanto veio porque as invasões recorrentes em São José costumam se concentrar em áreas de preservação ou com risco de deslizamentos — como no Morro do Alemão, em Potecas; no Morro dos Caetanos, na Colônia Santana; e no Morro da Boa Vista, às margens da avenida das Torres.

O local indicado pelo motorista não se encaixa no perfil buscado por quem invade: áreas devolutas, onde contam com a proverbial lerdeza do Poder Público ou de proprietários em conflito com a lei, como os grileiros.

A situação me trouxe à mente um episódio ocorrido em Porto Velho, narrado publicamente pelo então prefeito Roberto Sobrinho.

No início dos anos 2000, a Hidrelétrica Santo Antônio começava a ser construída no rio Madeira. Entre as compensações que a concessionária devia ao município estava a construção de escolas em terrenos fornecidos pela Prefeitura, que também elaborava os projetos. A empresa ficava responsável pela execução.

Em determinado bairro, após a escolha do terreno e a aprovação do prefeito, o projeto foi encaminhado à concessionária e uma placa fixada, informando sobre a obra. Mas, quando a construtora chegava para construir o canteiro de obras, já encontrava várias famílias instaladas em barracos improvisados de madeira, papelão e lonas. A Prefeitura engolia seco: se não incentivava, também não combatia essas ocupações.

A solução encontrada foi quase secreta: o prefeito passou a visitar os locais sem alarde e a placa só era colocada depois da instalação do canteiro de obras. A estratégia funcionou.

Voltando ao começo: como sou devoto de São Tomé — aquele que precisou ver para crer — fui até a suposta invasão que deu origem a esta crônica. A “barraca” vista pelo motorista de aplicativo era, na verdade, apenas um acampamento cigano.

[Crônica CXVII/2026]