
Maracatu com bandoneón (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot sobre foto Internet/Prompt JCarlos)
O lugar só ganha manchetes a cada quatro anos, às vésperas da Copa do Mundo, quando as redes de televisão enviam equipes para explorar, em matérias óbvias, o exotismo de uma cidade pernambucana que carrega o nome da capital argentina. Lá, o time principal chama-se Boca Juniors, há torcida uniformizada da seleção La Albiceleste, e o povo cultua Maradona e Messi.
Eu também só soube da existência dessa Buenos Aires sertaneja por causa da Copa da Fifa, que começa em alguns dias, e porque o jornal La Nación publicou uma reportagem sobre o lançamento de um documentário dedicado à Buenos Aires cabocla.
O bom texto, assinado pelo repórter Franco Spinetta, conta que um padre missionário no século XVIII, passou por um engenho de cana na localidade conhecida como Jacu e, de uma forma inexplicável, encontrou parecenças com a cidade portenha.
O apelido de Buenos Aires pegou — e no documentário que deve estrear nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Fortaleza e Vitória, no início de junho, a diretora Tuca Siqueira explora as semelhanças e diferenças entre pernambucanos e portenhos. Como diz uma das entrevistadas buenairenses: “Só porque o nome da cidade é Buenos Aires, o povo acha que é argentino, quer torcer pra [Seleção da] Argentina…”
A reportagem mostra que a sósia pernambucana tem apenas um estrangeiro entre seus 13 mil habitantes — e não poderia ser de outra nacionalidade. É um argentino, Leonardo Caponi, que descobriu a cidade quando morava em Recife e começou a namorar uma mulher nascida em Buenos Aires-PE, com quem se casou. Curioso, visitou o lugar em busca das semelhanças vistas pelo padre, mas estranhou ver tropas de burros carregando tambores d’água, feiras que ocupam ruas inteiras e homens levando gaiolas com passarinhos “para passear”.
Fiz uma viagem mental a essa Buenos Aires do sertão e acredito que gostaria de conhecê-la pessoalmente. Vi o trailer do documentário e, se puder, assistirei ao filme completo. Agora, na Copa, não vou torcer pela seleção da Argentina e, pensando bem, talvez nem pela do Brasil.
[Crônica CIX/2026]


