17 de maio de 2026

O desaparecimento de Luzinete

Por José Carlos Sá

Em jogo online não tem pause (Imagem criada pelo assistente IAgo/Prompt e adição BN JCarlos)

As sobrinhas só perceberam a ausência da tia Luzinete quando o pix da mesada não caiu na conta delas. Antes de reclamar, fizeram uma sondagem pelo grupo da família no WhatsApp:

“Tia Luz, está tudo bem com você?”, perguntou uma.

“Tia Luz, você vem aqui em casa hoje para o chá?”, quis saber outra.

“Precisa de alguma coisa do shopping, tia? Vou passar lá à tarde”, disfarçou a terceira.

 

Nenhuma resposta. As três irmãs, ainda pelo zap-zap, começaram a especular: 

“Eu estava contando com aquela grana pra fazer uma escova… Meu cabelo tá parecendo laranja chupada: só o bagaço!”

“Vamos lá na casa da tia Luz ver o que houve. Ela recebeu a pensão e não mandou nossa mesada…”

Decidiram ligar antes de aparecer, com a desculpa de saber da saúde dela. Telefonaram, mas o celular tocou até cair na caixa de mensagem. Deixaram recados, já começando a desesperar.

A sobrinha mais velha pegou um Uber, atravessou a cidade e chegou ao prédio da tia. O interfone não atendeu. Chamou o porteiro, mas era uma portaria remota; a atendente interfonou para o 907 e, sem resposta, disse que não havia ninguém em casa.

Inconformada, a sobrinha pediu à zeladora que verificasse se o carro da tia estava no estacionamento. Estava. Explicando a preocupação, convenceu a funcionária a subir até o nono andar e bater na porta. Voltou dizendo que dona Luzinete não respondeu e que devia ter saído a pé para o supermercado. Sugeriu esperar na pracinha em frente.

A noite caiu e nada da tia. Muito preocupada, a sobrinha ligou para as irmãs e levantou a hipótese de sequestro. As opiniões divergiram, mas concordaram em chamar a polícia.

O Boletim de Ocorrência foi registrado e, por se tratar de uma idosa de 91 anos, o delegado plantonista enviou dois policiais ao apartamento. Conversaram com vizinhos: ninguém tinha visto a dona Luzinete na última semana. Subiram, bateram à porta, anunciaram “Polícia”. Nada. Usaram a chave-mestra, entraram avisando, mas silêncio. Tudo limpo, móveis no lugar. Foram avançando até o quarto, cuja porta estava entreaberta.

Abriram com cautela e tiveram uma surpresa.

Dona Luzinete estava confortavelmente instalada numa poltrona reclinável — a famosa cadeira do papai — usando fones de gamer e jogando Bubbles Pop. Tentava bater o recorde mundial para entrar no Guinness Book, seu sonho secreto.

Caso resolvido, os policiais se retiraram e deixaram Luzinete continuar seu desafio. Ela só pediu que avisassem às sobrinhas: arrumem um emprego e a deixem em paz. 

[Crônica C/2026 – Texto inspirado em um caso ocorrido no mês passado na cidade de Cleveland – Ohio – EUA) 

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Cleveland Estados Unidos Leseira Ohio Pix videogame 

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