Em primeiro lugar, leitores, perdoem o trocadilho infame do título. Hoje, assim que liguei o computador, li a notícia de uma jovem de 21 anos que foi arremessada para fora do ônibus e caiu no meio da estrada fraturando o fêmur, entre outras escoriações, após o veículo colidir de frente com uma carreta. Ela estava na primeira fileira de poltronas e não usava cinto de segurança.
Numa viagem recente, por falta de opção, comprei um lugar justamente na primeira fileira. Logo ao embarcar, afivelei o cinto de três pontos — igual ao dos carros de passeio. Os passageiros que entraram depois me lançaram olhares de “coitado, esse velho é medroso…”.
Confesso que, no início, aqueles olhares me incomodaram. Mas logo dei de ombros: quem sabe de mim sou eu. E permaneci com o cinto afivelado até o desembarque.
Para passar o tempo nessa viagem, fui pesquisar estatísticas sobre o uso do cinto em ônibus. Os números são expressivos: segundo a Associação de Medicina de Tráfego, 85% das pessoas feridas em acidentes de ônibus não usavam cinto de segurança, e 50% das mortes poderiam ser evitadas. No Brasil, apenas 12% a 15% dos passageiros mantêm o cinto durante toda a viagem. Eu faço parte dessa minoria.
A legislação prevê que os motoristas têm a obrigação de exigir o uso do cinto. Posso testemunhar que a maioria deles — diria uns 90% — realmente avisa sobre essa responsabilidade. Mas quase ninguém presta atenção, da mesma forma que poucos ligam para as instruções dos comissários de voo nos aviões. E, na hora da emergência, é aquele atropelo.
Prefiro viajar desconfortável, amarrado à poltrona, do que sair voando pela janela e fazer uma aterrissagem forçada no asfalto.
[Crônica XCIX/2026]

