
Coloquei café para dois e depois chorei até molhar a toalha de mesa (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot / Prompt JCarlos)
Ele chegou, pediu uma cerveja no balcão, pediu licença e se sentou antes mesmo que eu tivesse permitido. Enquanto enchia o copo, sem olhar para mim, começou a falar — quase sem respirar, sem se importar se eu queria ouvir ou não.
— Eu não aguento mais ficar em casa. É a minha mulher, sabe? Teve um AVC — dois, na verdade — e sou eu quem cuida dela. Minhas filhas não querem saber da mãe, não aparecem para revezar comigo. Teve uma vez que fiquei seis dias dormindo só duas horas por noite… Ela acordava e queria conversar. Eu dizia: “Nega, vai dormir, são duas da manhã!” Mas ela virava para o canto e continuava falando. Levei-a ao médico, falei que não dormia, e o homem receitou um remédio que só piorou. Ficou grogue, falava coisas que eu não entendia. Suspendi por conta própria e voltou tudo ao que era antes. Dizia que eu a abandonava, que sumia. Mas eu só ia lá fora, dois minutos, fumar, ou corria ao banheiro. Eu estava sempre ao lado dela. Até que a paciência acabou. Falei um monte de merda, ela chorou muito, disse que eu podia ir embora, que não faria falta. Eu respondi com as mesmas palavras. E ela fez o que eu falei… Agora estou sozinho, lamentando aqui no bar, a ausência dela…
— Mas como ela foi embora se estava acamada, depois de dois AVCs? — consegui perguntar, na pausa em que ele bebeu a cerveja já sem espuma.
— Ela me deixou porque morreu há dois dias. E eu estou lamentando por ter desejado que fosse embora. Éramos casados há trinta e três anos… Não sei se vou aguentar. Hoje preparei café para dois e, quando lembrei que ela não estava mais, chorei até molhar a toalha da mesa.
— Meus sentimentos. Você precisa buscar ajuda… um psicólogo, um padre, sei lá, alguém que possa te ajudar.
— Obrigado por me ouvir.
Disse isso, levantou-se, pagou a garrafa quase intacta e foi embora. Nunca mais o vi. Fiquei com a lembrança da música de Alceu Valença:
“Na segunda manhã que te perdi / Era tarde demais pra ser sozinho / … / Fiz um canto demente, absurdo / O lamento noturno dos viúvos / Como um gato gemendo no porão / Solidão”.
[Crônica XCVII/2026]
