
Vivi o fascínio infantil e o medo diante do desconhecido no mesmo momento (Imagens criadas por IA de várias plataformas/Montagem BN JCarlos)
Meu pai sofria de uma dor de cabeça crônica, quase constante. Quando a crise vinha, ele se isolava. Minha mãe, tentando aliviar, molhava um pano com álcool — muitas vezes fraldas das minhas irmãs — e amarrava em volta da cabeça dele. Às vezes acrescentava rodelas de batata, acreditando reforçar o efeito do álcool. Nada funcionava.
Nesses momentos, nós, filhos, nos recolhíamos. Qualquer barulho podia render bronca ou até umas chineladas.
Ele dizia que a origem da dor estava em um acidente de trabalho na ferrovia. Ao abastecer uma locomotiva Maria Fumaça com madeira, uma lasca resvalou e bateu em sua cabeça.
Lembro-me das conversas em que comentava ter ido a médicos. A solução proposta era uma cirurgia — “abrir minha cabeça”, como ele dizia — para verificar se havia coágulo ou outra lesão. Ele nunca aceitou.
Era década de 1960/1970, quando exames como ressonância magnética pareciam ficção científica.
Muitas promessas foram feitas aos santos da Igreja Católica, ao mesmo tempo que buscava outras ajudas espirituais. Foi a Uberlândia procurar Chico Xavier; esteve em Congonhas do Campo para consultar Zé Arigó; uma rezadeira em Conceição do Coité, na Bahia; além de visitar outros médiuns. Nada adiantava.
Minha mãe o acompanhava em Centros Espíritas, em terreiros de Umbanda e Candomblé. Preparava e entregava despachos em encruzilhadas à meia-noite, recebia passes de todas as entidades possíveis. E a dor seguia, “imexível”.
Uma vez, uma mulher veio realizar um trabalho em nossa casa. Antes, entregou uma lista de materiais necessários. Minha lembrança daquela noite é fragmentada. Houve cantoria, depois ela retorceu o corpo e passou a falar com voz diferente.
Senti medo e me agarrei ao braço de minha mãe.
Com giz, a mulher desenhou um círculo e dentro dele uma estrela de seis pontas — “o signo de Salomão”, se não me engano. Cobriu os traços com pólvora, disse palavras que não compreendi e ateou fogo.
A chama correu pelo rastilho, espalhando fumaça de cheiro forte. Achei aquilo fascinante, mas minha mãe, conhecendo minha curiosidade, advertiu baixinho:
— Nem pensa em fazer isso!
Aquela noite ficou gravada em mim como algo incompreensível. Eu acreditava que aquilo era pecado perante a Igreja Católica, que eu frequentava, mas também entendia que era uma tentativa de aliviar o sofrimento de meu pai.
No fim, veio a frustração: depois de toda aquela pirografia, a dor de cabeça dele continuou invicta.
[Crônica XCI/2026]
