Minha casa foi erguida com materiais reaproveitados da demolição de antigos prédios da parte velha da cidade, onde os casarões davam lugar a construções modernas.
Há muito tempo eu havia comprado um terreno próximo ao bosque, já na borda da mata, e pedi ao arquiteto um projeto de residência com aparência rústica por fora e interior simples, mas acolhedor. A ideia era usar o que pudesse ser salvo das casas cujos donos já haviam partido, e cujos herdeiros preferiam morar em lugares menos dispendiosos.
As madeiras que sustentam paredes, telhado, piso e forro vieram de origens diversas. O construtor teve trabalho em escolher peças que se completassem, tanto na aparência quanto nas medidas, mas ao final entregou uma bela residência.
Eu costumava brincar dizendo que o “esqueleto” da casa era um verdadeiro “Frankenstein”: um caibro de uma casa, uma viga de outra; uma tábua de piso vitoriano ao lado de outra barroca; um friso rococó junto de um art déco.
Mudei-me assim que a prefeitura liberou o “habite-se”. A casa já estava mobiliada com peças de antiquário, e eu me perguntava se alguns móveis não teriam pertencido às mesmas famílias das quais vieram as tábuas das paredes.
Dois meses depois começaram os ruídos. No início, pensei que fosse a madeira “trabalhando”. Mas logo os sons se tornaram gemidos, lamentos, passos arrastados. Numa madrugada, acordei com vozes sussurrando discussões. As câmeras nada mostraram, mas eu sabia que não estava sozinho.
Cismado, chamei o benzedor mais famoso da região. Ele passou uma noite sozinho na casa e, ao amanhecer, estava pálido. Disse que minha residência estava tomada por dezenas de fantasmas, cada um preso às peças que outrora compunham suas moradas. Não era uma casa: era um cemitério de memórias.
O exorcismo daquela multidão de ectoplasmas me custou caro. Tão caro que agora vendo a casa para pagar os empréstimos que precisei levantar.
Fui querer ser ecologicamente correto e me dei mal. Muito mal.
[Crônica XC/2026]

