Na silhueta de um general, Carpentier desenha a América Latina — território onde o autoritarismo se confunde com a história.

General – A geografia do autoritarismo desenhada sobre a América Latina (Imagem e legenda criadas por IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Li este livro lentamente por vários motivos. É uma narrativa que demanda atenção, e o período que escolhi para me dedicar à leitura foi conturbado por problemas de saúde meus e da família. Em segundo lugar, há centenas de notas de rodapé cuja leitura é necessária para compreender as referências que o autor oferece, inserindo personagens reais na trama fictícia.
O recurso do método, do suíço-cubano Alejo Carpentier (Editora Pinard, São Paulo, 2025), traça a história de um ditador latino-americano desde a sua ascensão ao poder, passando pelo uso e abuso das atribuições autodefinidas, até a deposição e a morte, solitário e esquecido em Paris – cidade que para ele simbolizava o progresso cultural.
Aliás, o livro começa com o “Primeiro Magistrado” acordando em sua casa em Paris, com vista para o Arco do Triunfo, depois de uma noitada em uma casa de prostituição onde cada quarto tem uma decoração temática e a profissional precisa atuar de acordo com o cenário. São celas de convento, uma cabine do navio Titanic pouco antes do naufrágio, um vagão de luxo da ferrovia que fazia a linha Paris–Lyon–Mediterrâneo, uma casa japonesa e um chalé normando.
A narrativa é conduzida tanto pelo protagonista quanto por uma voz externa que funciona como um “grilo falante”, revelando as estratégias usadas pelo ditador para se convencer de que age corretamente.
O período descrito vai do início do século XX até os fatos que deram início à Segunda Guerra Mundial e as influências desses acontecimentos mundiais no país fictício latino-americano, que reúne características de vários países da região. O ditador também é construído a partir de “fragmentos” de líderes reais da época.
Alejo Carpentier criou o Primeiro Magistrado com traços de alguns ditadores históricos, como: Antonio Guzmán Blanco (Venezuela), Porfirio Díaz (México), Manuel Estrada Cabrera (Guatemala), Gerardo Machado (Cuba), Cipriano Castro (Venezuela), Anastasio Somoza García (Nicarágua), Rafael Trujillo (República Dominicana) e Fulgencio Batista (Cuba).
O livro foi lançado em 1974 e – apesar de não citar o Brasil – menciona métodos semelhantes aos utilizados pelos militares que tomaram o poder em 1964, para extrair ou confirmar informações de presos políticos do movimento de oposição à ditadura.
Os mecanismos usados para abafar fatos comprometedores, como a criação de factóides e o suborno de jornalistas, são amplamente explorados, assim como a fabricação de cortinas de fumaça para iludir a população. Coisas que só acontecem na imaginação de algumas pessoas…
Recomendo a leitura principalmente para quem não conhece como funcionam os bastidores do poder e se deixa iludir pelas imagens externas dos homens públicos. É a aplicação prática da frase atribuída ao chanceler Otto von Bismarck: “Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas.”
SERVIÇO
O quê: Livro O recurso do método
Quem: Alejo Carpentier
Editora: Pinard
Preço: A partir de R$ 83,00 (pesquisa na internet)
[Resenha VIII/2026]


